Crise, Metro, Pensamentos

Histórias a Metro #2

Acontece frequentemente apanhar no metropolitano, algures pela linha amarela, duas senhoras de idade assertiva a quem o Metro parece fazer as vezes do bairro, ali se juntando, ora nesta estação ou na seguinte, todo um rol de amigas, primas e outros parentescos femininos. Não sei ao certo de onde vêm nem para onde vão estas senhoras, que geralmente se despedem em paragens distintas, mas conheço as suas preocupações e aquilo que mais prazer lhes dá na vida: os netos.

No outro dia, uma delas contava: «E ele virou-se para mim e sabem o que me disse? “Ó vó, a vida está difícil!”». E todo o ensemble de amigas explodiu em risos e palmas, enquanto, ainda que ninguém pedisse bis, a senhora repetia uma e outra vez aquele «Ó vó, a vida está difícil!», espécie de marca do espírito saudável e do bom desenvolvimento da criança. E como se a cena não me bastasse, o acaso providenciou que no dia seguinte eu as encontrasse novamente, mesmo a tempo de ver outra das comadres exclamar: «Ontem, o meu neto perguntou-me: “Ó vó, eu também vivi acima das minhas possibilidades?”», e dito isto todas bateram os pés no chão, deram palmadas nas pernas e comeram uma barrigada de riso que as poderia até ter indisposto e feito alguém gritar: Há algum médico na carruagem?

Admito que os referidos petizes tiveram a graça do momento, mas há algo que me preocupa; até as mais pueris criaturas já crêem que a culpa é delas; coitadas, também já assimilaram o discurso do nosso salafrário ministerial de que a culpa é de todos, e certamente se arrependerão prontamente daqueles carrinhos que compraram sem precisar — ah!, os malditos gastadores! — ou do crédito que pediram para adquirir, em cómodas prestações, a boneca Rosinha, a tua amiguinha. «Vamos dar as mãos e cantar uma canção», não era, Rosinha? Mas agora quem fica a pagar a crise? Amigos, amigos, negócios à parte, dizes tu sob esse sorriso plástico, não é, Rosinha? A quem te deu a mão não a dás tu agora.

Não! Os pequenos não têm culpa, e não nos deveríamos rir quando eles, antes de aprenderem os números até ao cem, nos perguntam já se viveram acima das suas possibilidades, ou quando, ainda sem conhecerem o alfabeto todo, afirmam que a vida é essa coisa difícil. Entre os petizes, a culpa é daqueles que aparentam ser adultos, como o menino Paulinho, capaz de afundar um ror de dinheiro em dois submarinos para brincar na banheira. Melhor teria feito em comprar um patinho, amarelo, daqueles de borracha. Mas os rapazes sempre preferiram brincar às guerras…

 

Hugo Picado de Almeida

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