Literatura, Livros, Pensamentos

Perguntar não ofende, mas às vezes aleija

Estou hoje em condições de afirmar que é para mim uma espécie de castigo quando me perguntam sobre o que é um livro que esteja a escrever no momento.

É que, quando um livro está acabado, é possível olhar para trás e ver o que foi e o que não foi feito, arranjar-lhe explicações passíveis de apresentação, mas numa obra em curso não há retrovisor que nos valha. A história acontece por todos os lados e ao mesmo tempo, segue atrás de nós, afasta-se pelas laterais e escapa-se à nossa frente, rebenta-nos as costuras às mãos feitas redes que tentam equilibrá-las todas, com sentido e brilhantismo malabarista. Uma história inacabada tem o problema dos panoramas: não é possível abarcar todo o conjunto de uma só vez, geralmente até porque parte dele não existe, e se existe está ainda exposto às mais tolazes e inesperadas alterações, ou a que lhe retirem o chão debaixo dos pés.

Não se pode falar bem de um livro inacabado porque não se podem confessar, ou por vezes sequer apreender, as motivações que nos animam durante o processo, as questões que nos assolam, ou os desejos que seguimos. A pior forma de perceber um carro em movimento é seguindo dentro dele.

 

Hugo Picado de Almeida

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