Literatura, Pensamentos

Gaiola procura pássaro solteiro, honesto, carinhoso

Kafka terá escrito um dia: «Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.»

Parecendo surreal, a frase agarra a realidade de forma exemplar. É que raras vezes são os pássaros a internarem-se em gaiolas propositadamente, e os leitores de histórias de espiões sabê-lo-ão bem: o pássaro está na gaiola. A raposa entrou na toca .
Ora, aqui, é sempre a gaiola quem procura o pássaro, ou que o alicia a entrar, dourando as grades para o seduzir, usando dos mais ilustres subterfúgios para o levar à certa. Os pássaros vivem ao engano, a correr, ou a voar, atrás do prejuízo, a reboque do percurso que as gaiolas traçam para si e para eles; são elas que comandam o jogo, são elas que sabem o que sucederá a seguir.

Sejamos, pois, gaiolas. Afinal, mais vale um pássaro na mão, quando o pássaro não somos nós.

 

Hugo Picado de Almeida

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