Cultura, Literatura, Livros

Os livros sem rosto

No Fedro, de Platão, diz Sócrates que os textos não podem responder aos leitores, e que não são oportunos, pois dizem sempre a mesma coisa, independentemente do tempo e daquele que neles pega.

O que Sócrates talvez não pudesse ter adivinhado é que um dia também os textos (ou os livros) iriam perder a sua identidade. Tenho reparado, nas últimas semanas, que cada vez mais gente aparece nos transportes públicos com livros forrados em jornal, ou dentro de umas capas próprias, de tecido e almofadadas; são, talvez, os livros a exigir um tratamento igual aos tablets e aos leitores de ebooks. É uma pena, porém. É uma pena, porque os livros têm a sua capa, e é nela que está a sua identidade, e a do seu autor.

O risco que se corre, claro, é o de enaltecer o livro pelo livro, a leitura pela leitura, reduzindo toda a página impressa a algo que valha a pena ser lido, aquele que lê em alguém que merece reverência, e aquele que escreve num mestre. Esconder a capa de um livro nivela tudo por cima, e fica-se assim enovelado numa espiral involutiva, devedor de uma concepção básica do papel da literatura (erradamente alargada a tudo quanto tenha páginas escritas) como promotora cega de cultura. O cão que corre atrás da cauda nunca é profícuo, e acaba por se tornar patético.

 

Hugo Picado de Almeida

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