Livros, Pensamentos

O ovo ou a galinha, a literatura ou o real

Algures por esta altura, no ano passado, terminei o primeiro livro que haveria de ver editado. É aquele que está aqui à direita.

Um pouco como acontece ao seu narrador, cujas personagens encontra realmente, em carne e osso — partindo do arriscado pressuposto de que as personagens são como os demais dos Homens –, também eu usei no livro o eco de uma imagem real para uma das personagens que haveriam de percorrer-lhe as páginas: Anoush. Nunca a vira a menos de vinte ou trinta metros de distância, até hoje. O que usei dela, no livro, não foi mais do que as feições asiáticas e a atitude de correr pelas escadas do metro, para cima ou para baixo, como se fugisse de si própria. Também não poderia usar mais. Nunca lhe notei sequer a cor dos olhos, nem outras coisas que os homens habitualmente notam nas mulheres.

Nunca mais a vira, ou pelo menos nunca mais reparara nela, naquela sua prova de obstáculos a vencer os degraus que medeiam entre a plataforma e o átrio. Até hoje. E hoje, pela primeira vez, vendo-a passar perto de mim, ela estava diferente. Não estava diferente porque, assim mais de perto, eu pudesse ver que ela era bem diferente de quem, à distância me parecera. Estava diferente no cabelo, antes liso e comprido e agora curto, apanhado no alto da cabeça com um pauzinho a tomar conta do conjunto, e a cara, antes branca, adornava-se hoje com um pó de tom rosa e laivos brilhantes. Fiquei surpreendido, como devem ficar as pessoas que em crianças nos vêem só de tempos a tempos e exclamam sempre «Está tão diferente! Tão crescido!»

Percebi de imediato, porém, que não havia motivo para surpresas, e que eu deveria ser o último a cair no espanto. Afinal, narrei-lhe um futuro. Deveria espantar-me por vê-la cumpri-lo? Quando a colei no livro, vestindo-a e moldando-a como se faz sempre às personagens, mais ou menos distantes do real, ela era solteira. No final do livro, porém, depositei-a ostensivamente nos  braços de alguém, fazendo-a abdicar das barreiras mentais que lhe emprestavam o ar de guerreira. E hoje foi assim que a encontrei, pintada e arranjada para agradar a alguém.

Felizmente ia a caminho do trabalho, e submergi-me num livro de que sou apenas leitor. Não quereria correr o risco de encontrar as outras personagens todas pela frente. Algumas poderiam querer ajustar contas comigo, e com muita razão.

 

Hugo Picado de Almeida

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