Pensamentos, Pessoas

Escusatório

No Metro, as palavras que mais se dizem estão em pedidos de desculpa. A todo o momento, «desculpe, desculpe», «com licença», «peço perdão». Tudo merece escusas, da mais flagrante pisadela ao mais leve e involuntário roçar de cotovelos, que o puritanismo dos anónimos — pudor num subterrâneo!, que bonita imagem — da cidade converte em ofensa pronográfica.

Não tocar! Não mexer!
Não ouvir, não falar, não ver.

O Metro é uma espécie de viveiro das cidades, onde se vai beber a lógica que nos há-de valer à superfície. É neles que se aprende um exacerbado proprietarismo que, primeiro sobre o corpo, depois se estende a tudo. Não sei bem o que mantém as cidades unidas, mas o que se vive no Metro não leva a crer que sejam as pessoas. Será, talvez, a atracção por uma centralidade artifical, como diz Baudrillard, essa noção de que não há motivo para a deixar.

 

Hugo Picado de Almeida

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