Pensamentos, Pessoas

Criaturas fantásticas: o padeiro

Hoje vi um padeiro. E, aqui, peço já ao leitor que não se amofine pela aparente promessa de disparate que tal frase inaugural pode pôr sobre a mesa, e que não seja tão lesto em julgar como patético o carácter deste texto. Dê-lhe uma oportunidade antes de fechar a página, rogo-lhe. Recomeços, pois: Hoje vi um padeiro. Eram 8h25, o sol raiava já sobre os prédios, e eu via um padeiro. Pelas costas, é certo, a entrar no seu prédio, mas era um padeiro. Apressado que ia, mesmo assim de fugida dava para ver que se tratava de um padeiro. Era um padeiro, sem dúvida, completo nas suas calças largas de riscas azuis e brancas, na jaqueta branca e direita, e no chapéu, também ele branco e de formato a preceito.

«Mas o que há de tão extraordinário em ver um padeiro?», poderão alguns perguntar. Para começar, o próprio acto de o ver. O caso parece-me óbvio, mas empreenderei na sua explicitação. Digamos primeiramente, e para assentar a poeira — ou talvez para a levantar –, que a surpresa de ver um padeiro é parente do embasbacamento sentido na presença de um fantasma, ou até de um vampiro. É que todos os três são criaturas da noite — padeiro, fantasma e vampiro –, e é assim que as coisas devem ser. Ensina-nos a literatura, da mais infantil à mais depravada, da original impressa até à cinematizada, que, de noite, só anda gente de má rês. Não sei quem foi que assim o designou, mas toda a gente o sabe: de dia, passeiam-se as virtudes; à noite, vagueiam os pecados. É por isso que nos espantamos grandemente quando um crime é cometido «em plena luz do dia».

As fronteiras estão assim traçadas para que não corra riscos quem não os quer correr, e talvez resida aí a raíz do meu sobressalto. Andando na rua à noite, exponho-me a fantasmas, vampiros e padeiros. Mas encontrar uma destas criaturas fantásticas logo pela manhã é de fazer temer pelo dia. E mais, atrevo-me a dizer: algo assim abala todos os bastiões da segurança.

É que a sua caracterização literária proibiu os fantasmas de andarem por aí durante o dia, e a natureza dos mistérios descabidos encarregou-se de tornar o sol insuportável para os vampiros. O Homem tentou fazê-lo com os padeiros, inventando que não pode arrancar o dia sem que haja pão quente sobre a mesa. Ora, aí está a origem do meu infortúnio, ao descobrir que afinal os padeiros são gente como nós, que suporta bem a luz do sol, que gostam de alho e provavelmente de prata e, até, que convivem muito bem com a farinha de trigo, com a de milho e com o fermento, tudo coisas pelas quais não se conhece o gosto de fantasmas, que não consta que comam coisa alguma, nem dos vampiros, quiçá por lhes congestionar as papilas gustativas ou por lhes tornar rombos os caninos.

Quantas vezes nos cruzamos com estas criaturas fantásticas na vida? A maioria de nós só toma contacto com elas em livros ou em filmes, pelo que certamente compreenderão a minha excitação. Nunca vi um fantasma nem um vampiro; sorriu-me hoje o acaso: vi um padeiro.

 

Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “Criaturas fantásticas: o padeiro

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