Pensamentos, Pessoas, Política

O acidente de Miguel Relvas

Sinto, de alguma forma, que estou em incumprimento ao ainda não ter dito uma linha sobre a licenciatura do Ministro Miguel Relvas. Mas, afinal, o que é que eu tenho para dizer que valha a pena ouvir? É nisto que tenho pensado. O que é que eu tenho para dizer que não seja mero ruído ou repetição? Nas próximas linhas tentarei debelar esta incerteza.

Há coisas que me fascinam tanto quanto me assustam; este é o par segundo o qual muitas coisas se nos apresentam. Por exemplo, a destruição do corpo. Em que é que isso me assusta, parece evidente; em que é que isso me fascina pode constituir matéria mais obscura, eventualmente digna de análise psiquiátrica, poderá dizer o leitor. Mas não é esse o caso. Lá por me fascinar, está longe de me atrair. O resultado repele-me, como à maioria tranquila das pessoas saudáveis; o que me fascina, a bem dizer, é o processo, ou melhor ainda, o nosso arsenal natural para negar o processo.

Tornemos as coisas mais claras, recorrendo para isso à História e à Biologia da Humanidade: os nossos ossos estão prontos para aguentar o impacto da queda numa corrida a pé, e mesmo a queda de uma árvore de baixa estatura onde os nossos antepassados eventualmente pudessem querer subir na procura de alimento. Simplificando: os nossos ossos estão naturalmente equipados com a robustez e elasticidade necessárias para nos defender dos nossos próprios meios de locomoção, ou dos acidentes que por eles possamos enfrentar. Mas o corpo não previu que construíssemos motas e automóveis — e que nos lançássemos depois à velocidade que eles permitem –, ou que erguêssemos arranha-céus de onde cair, ou que inventássemos a vontade para escalar sequóias gigantes por recreação. É assim que acidentes envolvendo os exemplos mencionados atrás nos lesam muitas vezes o corpo de forma grave, quando não fatal. As forças envolvidas superam os parâmetros da nossa resistência, e tudo se resume a isso.

Ora, o mesmo aconteceu a Miguel Relvas, a quem a licenciatura parece ter saído como brinde numa caixa de cereais ou num Happy Meal. É que ao invés de percorrer a licenciatura à velocidade normal, a pé e com o esforço adequado ao modo de locomoção, Miguel Relvas, querendo negar a norma que regula a vida dos comuns mortais, quis fazê-lo numa daquelas motas de competição, da qual acabou naturalmente por cair e, como veremos num dos próximos capítulos, por sair fatalmente magoado, destruído no espírito, o que na vida pública está mais exposto ao risco do que o corpo.

 

Hugo Picado de Almeida

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