Literatura, Pensamentos

Criar é não parar

Às vezes penso demasiado nas coisas.
Será, talvez, um defeito do ofício: pensar sempre no que acontecerá a seguir, colocar hipóteses, posicionar os intervenientes, inventar situações das mais banais às mais inauditas; ver mentalmente como as coisas se passarão, ponderar as suas consequências e devanear pelos cenários mais improváveis; fazer histórias na cabeça, misturar realidade e ficção, sonhar acordado com a matéria-prima em que se pode tocar.

O problema talvez não seja, então, o de pensar demasiado nas coisas, mas sim o de ficcionar demasiado em torno delas.

Colocou, um dia, G. K. Chesterton na boca de uma das suas personagens: «Os ladrões respeitam a propriedade, apenas desejam que ela se torne sua, a fim de a poderem respeitar melhor. (…) Os bígamos respeitam o casamento, caso contrário não se sujeitariam à formalidade, altamente cerimoniosa e até ritual, da bigamia. (…) Os assassinos respeitam a vida humana, somente desejam atingir neles próprios uma maior plenitude dela pelo sacrifício do que lhes parece serem vidas inferiores.»

Parece, então, que o excesso pode sempre culminar em algo indesejável. Felizmente para a ficção, as personagens tendem a sair mais magoadas do que os seus autores.

Quem quer escrever não se pode dar ao luxo de deixar de ficcionar. É preciso não parar.

 

Hugo Picado de Almeida

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