Literatura, Pessoas

«Para o caso disto correr mal…»

«Para o caso disto correr mal…» Foi assim que Miguel Portas intitulou o documento onde exprimiu os seus últimos desejos.
A expressão é, para mim, de uma extraordinária beleza tragicómica — simples mas certeira, dessas coisas que as personagens sabem dizer mas as pessoas não — e dá provas da grande clarividência de quem a escreveu.

Já a personagem Ivan Ilich, n’ A Morte de Ivan Ilich, de Tolstoi, teve uma atitude mais humana ao deparar-se com a doença: «Eu posso lá agora morrer. Tal horror passaria todas as marcas.»

Seria talvez mais prudente termos o nosso «Para o caso disto correr mal…» em relação a muitas coisas que não apenas a morte, pois essa às vezes chega sem que nos apercebamos da presença de um isto que possa correr mal. Mas geralmente somos mais parecidos com Ivan Ilich: somos optimistas mesmo sem o perceber, optimistas talvez além do razoável.

Miguel Portas, ainda que fosse um optimista, encarava o optimismo com outros olhos, entendia-o o de maneira diferente de Ivan Ilich; afinal, Miguel Portas disse, um dia: «Nós não somos os optimistas; o que nós somos é realistas.»

 

Hugo Picado de Almeida

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