Cinema, Literatura, Pensamentos

O marketing do real

É comum dizermos que as melhores histórias são as verídicas. Mas por que razão o dizemos?

É que, vistas bem as coisas, as histórias verídicas vêm em bem menor número do que as demais, porque apenas uma fracção do real tem interesse como história a ser contada. Aliás, curiosa e sintomaticamente, temos que as histórias verídicas que nos chegam são aquelas que fogem ao quotidiano, são as inesperadas; por outras palavras, são aquelas que nos parecem saídas da ficção.

O marketing da literatura e do cinema sabe-o já há muito tempo, e não se coíbe de nos alertar quando uma narrativa é «baseada numa história verídica». E porquê? Porque isso chama em nós esse apetite por um certo real extraordinário. Porque isso vende.

Mas o real que nos chega nunca é o real ele próprio. Mesmo uma autobiografia, na medida em que revê ou traduz uma experiência, é já e sempre uma construção em torno dela. Aliás, é assim que o marketing se defende legalmente: «baseado numa história verídica», recordemos.

As melhores histórias talvez não sejam, então, tanto as verídicas, mas sobretudo as que nos são contadas como se o fossem.

 

Hugo Picado de Almeida

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