Cinema, Pensamentos

O Pulp Fiction aqui tão perto

É comum apontar-se no Pulp Fiction (Tarantino, 1994) a cena em que Vincent e Jules, assassinos profissionais, conversam sobre massagens aos pés enquanto se encaminham para casa dos seus próximos alvos. A cena é geralmente referida para mostrar a frieza das personagens e a sua indiferença perante a morte.

Ora, não me parece que seja exactamente disso que se trata. O caso aqui é que Vincent e Jules não falam propriamente de massagens aos pés. Aquilo de que falam, na realidade, é de uma massagem aos pés de uma mulher poder motivar o assassínio de alguém, no caso de existir um marido — eles falam do seu patrão, Marsellus Wallace — na equação.

Em boa verdade, a morte é a única coisa que liga todas as personagens do filme, e é ela que faz avançar a narrativa.

Assim, não é tanto a indiferença perante o fim que os marca, mas o fim ele próprio, que se insinua sobre toda a sua vida. A morte surge, assim, não como coisa banal pela habituação, mas banal pela sua medonha facilidade. O mesmo acontece, ironicamente, quando Vincent e Jules seguem com Marvin, seu informador, sentado no banco de trás do carro. Falam do milagre (para Jules; coincidência para Vincent) que foi nenhuma das balas que uma das suas vítimas disparou lhes ter acertado. Vincent argumenta que são coisas que acontecem, e relata um tiroteio que viu num documentário de televisão, onde um polícia esvaziava um carregador e não acertava um único tiro. Curiosamente, quando Vincent se vira para o banco de trás do carro para pedir a opinião a Marvin, basta o único tiro que dispara acidentalmente para atingir Marvin no rosto.

Estou convencido disso: Pulp Fiction não fala da indiferença ou habituação à morte. Fala, sim, da sua relação com a vida. Afinal, tanto Vincent (que deverá fazer companhia por uma noite à mulher do seu patrão) como Jules (que vê no milagre de ter escapado ileso um sinal para se reformar) passam o filme preocupados com a sua sobrevivência, e é isso mesmo que partilham com as demais personagens e, já agora, com os espectadores fora do ecrã.

Hugo Picado de Almeida

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