Livros, Pensamentos

Dois tipos de empreendedorismo

Está na moda falar de Empreendedorismo. Não foi a crise que inaugurou esse discurso, mas foi a crise que o pôs sobre os holofotes e, simultaneamente, o tornou confuso, fingindo falar de um valor universalmente bom.

Importa distinguir dois tipos de empreendedorismo quando falamos de empreendedorismo. Por um lado, o empreendedorismo como mentalidade, como sinónimo de iniciativa, como tradução de quem tem projectos seus — esse também eu defendo. Mas (e sobretudo nos media) muitas vezes confunde-se este empreendedorismo com o outro, que é mais visível, mas cujos casos de sucesso são necessariamente mais reduzidos: o empreendedorismo como forma de emprego por conta própria, como forma de criar riqueza e crescimento (esse crescimento que os economistas advogam ser a saída para a crise mas que não sabem dizer concretamente como ou onde se pode alcançar).

Como projecto de escritor que sou, aproximo o assunto dos livros. Desde que os e-books começaram a ganhar terreno que vozes anglo-saxónicas — e a Apple e a Amazon a liderar o cortejo — falam de self- ou direct-publishing como o futuro risonho para os escritores, dando o exemplo de Amanda Hocking ou de J.A. Konrath, que vendem mensalmente centenas de milhares de exemplares sem intermediários que não sejam as lojas online onde colocam os livros. Mas nem precisamos de ir tão longe. De acordo com o Publishing Perspectives, há autores que vendem a partir dos 800 exemplares (continuamos a falar de e-books) por mês, e que conseguem assim viver dos seus livros, conseguindo lucros mensais entre os 3 mil e os 16 mil dólares (aprox.), ou seja, algo entre os 2 mil e duzentos e os 12 mil euros por mês, o que é claramente bom em qualquer dos cenários.

Estes dados referem-se aos autores com livros em formato Kindle, o mais célebre e provavelmente o mais comum dos formatos. De acordo com ele, porém, apenas cerca de 230 autores, actualmente, conseguem vender 800 ou mais exemplares por mês (digo apenas porque convém não esquecer a dimensão do mercado dos livros em língua inglesa, sobretudo quando comparado com o caso do português).

É aqui que se encontra a confusão dos dois tipos de empreendedorismo. O empreendedorismo como mentalidade deve ser perseguido: é por ele que desenvolvemos projectos, é por ele que definimos objectivos para nós, é por ele que criamos. Já o empreendedorismo como carreira independente de tudo e de todos, como solução profissional, deve ser advogado com calma, porque não só nem todos têm capacidade para o conseguir, como nem todas as áreas e conjunturas o permitem.

Voltando aos livros, e mesmo considerando o Brasil e imaginando que deste e do outro lado do Atlântico os e-books reuniam já a preferência de muitos leitores, passa pela cabeça de alguém que mais do que um par de autores de língua portuguesa consiga vender mais de 800 exemplares/mês durante uma dúzia de meses?

 

Hugo Picado de Almeida

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4 thoughts on “Dois tipos de empreendedorismo

  1. Mariana diz:

    E o empreendedorismo enquanto criação de projectos com consciência de que alguns fazem carreira?
    É claro que há gente boa e gente má em todo o lado, e já ouvi muitos a dizer que o que interessa é o dinheiro a entrar, que “empreendedorismo social (que é uma vertente que existe) não interessa a ninguém”.
    Sinceramente, acho que o bom empreendedor mede não só os resultados que o projecto tem para si, mas também o impacto que este cria na comunidade.

    Quando dizes “confunde-se este empreendedorismo com o outro, que é mais visível, mas cujos casos de sucesso são necessariamente mais reduzidos: o empreendedorismo como forma de emprego por conta própria, como forma de criar riqueza e crescimento”, estás a separar duas coisas que não são separáveis. Empreendedorismo é uma atitude, é. Mas há muitos que fazem dessa atitude uma coisa para a vida, uma carreira. Um projecto socialmente responsável, que ainda assim tenha objectivos de retorno financeiro para quem o projecta, cria tanto (ou mais!) crescimento e riqueza como qualquer outro negócio “business as usual”.

    E olha que os casos de sucesso não são assim tão escassos! Há imensas ideias portuguesas a ter um sucesso brutal pela Europa e pelos EUA fora! Somos pequeninos, mas maiores do que aquilo que pensávamos! 🙂

    • Olá, Mariana,

      Antes de mais, obrigado pelo teu comentário.
      Parece-me que concordamos no essencial, mas estamos a dizê-lo de forma um bocadinho diferente. «O empreendedorismo enquanto criação de projectos com a consciência de que alguns fazem carreira?» Claro que sim, é um dos tipos que referi, esse que significa, como escrevi, criar emprego e riqueza.

      Aliás, quando dizes que «Empreendedorismo é uma atitude, é. Mas há muitos que fazem dessa atitude uma coisa para a vida, uma carreira.», estás a falar precisamente dos dois tipos de empreendedorismo que referi e, desculpa-me, a separá-los também, tal como eu fiz.

      Eu sou a favor do empreendedorismo, claro (e como é que poderia não ser?), mas aquilo para que procurei alertar neste meu artigo é que é preciso cuidado quando falamos de empreendedorismo. Como uma amiga minha ainda ontem escreveu, se todos fossemos empreendedores (no sentido mais comercial do termo), não haveria espaço para todos. Mais do que isso, há situações, como o mercado dos livros, que me interessa particularmente e ao qual fiz referência no artigo, em que o empreendedorismo interessa mais como atitude do que enquanto negócio, pois muito difícil será vingar só através dele. O empreendedorismo para vingar não precisa só de uma boa ideia; precisa de dinheiro, também, precisa de apoios, precisa, no mínimo, de ouvidos dispostos a escutá-lo.

      Concordamos nesse ponto; os casos de sucesso não são assim tão escassos, e é óbvio que esses negócios criam tanta ou mais riqueza do que o tal «business as usual», até porque o «business as usual» foi, um dia, empreendedorismo.
      Claro que Portugal temo muito para oferecer e que há portugueses a criar projectos fantásticos nas mais variadas áreas, mas por muitos casos de empreendedorismo de sucesso que haja pelo mundo, nem em Portugal nem nos EUA toda a população poderá criar o seu próprio negócio, assim como numa empresa nem todos podem ser o chefe.

      Cumprimentos,
      Hugo Picado de Almeida.

      • Mariana diz:

        Olá Hugo,

        Concordo com o que disseste, pelo que não me vou alongar com a resposta. Deixo-te apenas dois pequenos apontamentos:

        1) Quando há boas ideias, há sempre ouvidos dispostos a recebê-las. As associações de business angels e as capitais de risco portuguesas estão neste momento a queixar-se de que nos últimos anos não têm tido quase nenhum retorno positivo das ideias em que investiram, mas mesmo assim, estão dispostas a receber ideias todos os dias! Há tempos, o clube de empreendedorismo de que faço parte (o clube de empreendedores da Nova, o NOVA Entrepreneurship Society) organizou o seu evento anual, para o qual seleccionámos 5 start-ups e as levámos a apresentar as suas ideias a dois painéis de investidores. E, embora, na minha opinião, nenhuma das start-ups fosse assim uma coisa do outro mundo, os investidores estavam ali a dar a sua opinião, a interessar-se e, alguns, a perguntar a tão desejada “Então e de quanto é que precisam?”!

        2) É claro que criar empresas e ter ideias não é para todos. Há pessoas que funcionam melhor a trabalhar segundo o comando das ideias de outros, e não me parece que haja nada de errado com isso. Mas a atitude é importante, até porque podes ser empreendedor enquanto trabalhas inserido na estrutura de uma empresa de que não és dono! O empreendedorismo faz-se muito do trabalho em equipa, e quando trabalhas por conta de outrem estás a integrar uma. Os trabalhadores que desenvolvam e demonstrem uma atitude deste género acabam até por subir rapidamente na hierarquia da empresa.
        E, sinceramente, nem acho que seja necessário que todos andemos aí a abrir negócios. Se eu abrisse uma agência de publicidade e marketing (sou colega de turma da Ana Neto, na área de design) não me importaria de trabalhar contigo na área do copyright, por exemplo, és um excelente escritor! Se todas as pessoas com ideias (ou capacidade para as ter e desenvolver) conseguirem ter a força de vontade necessária para as levar para a frente, gera-se emprego. Há alguma coisa que faça mais falta neste momento, neste país?

        Mariana.

        • Olá, Mariana,

          Obrigado pelo contacto.

          Quanto ao que escreveste, concordo plenamente.
          Sobre o ponto 1, agrada-me muito saber que assim é, e desde já parabéns pela iniciativa. Conheço pessoas que estiveram presentes nessas sessões de empreendedorismo e só ouvi coisas boas.
          Sobre o ponto 2, estou precisamente de acordo, e era isso que eu queria dizer com o empreendedorismo enquanto atitude. Partilho dessa visão, de que mais importante do que tudo é a atitude. Ela gera oportunidades, e isso não só para quem pode criar uma empresa mas também para quem se pode associar a outros projectos, ou para quem já está no mercado de trabalho encontrar novos caminhos e desafios. O empreendedorismo, no fundo, como abertura, como disposição para arriscar.

          Agradeço-te o muito simpático elogio que me fizeste, e deixa-me feliz saber que és amiga da Ana Neto, que eu tenho em grande consideração 🙂 Se quiseres avançar com essa ideia de abrir uma agência de publicidade e marketing (áreas em que, aliás, vejo o empreendedorismo a funcionar muito bem) e precisares de um colaborador, não hesites em contactar-me. O copy em publicidade é precisamente uma das áreas em que mais gostava de trabalhar, e o design algo que sempre admirei.

          Beijinhos,
          Hugo Picado de Almeida.

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