Literatura, Livros, Pensamentos

A Peste e a vida

N’A Peste, de Albert Camus, ainda que a morte seja o pano de fundo, ela chega a passar-nos ao lado. Ela acontece, sobretudo, nas outras casas, nas outras ruas, nos outros bairros, às outras pessoas. A morte é sobretudo estatística, e goza, por isso, da inocuidade dos números; torna-se abstracta. Torna-se abstracta, por se tornar tão familiar e tão estrangeira, e as preocupações das personagens que nos são dadas, e a quem a peste não bate à porta, não são particularmente diferentes das preocupações de todos os dias.

Camus instala em nós de forma magistral esta sensação, até que, e isso marca o ponto de viragem da narrativa, a peste nos é servida fria e violentamente, com grande detalhe, e logo sobre o corpo de uma criança, quando menos o esperávamos.
O mais notável, porém, é que mesmo quando a peste se vai embora, desaparecendo gradualmente, a morte faça nova vítima, uma das mais queridas e próximas de nós. E aí todo o livro constrói o seu significado. Compreendemos, afinal, que A Peste, de Albert Camus, não é tanto sobre a peste, mas sobretudo sobre a vida ela própria.

Compreendemos, então, que vida fora da peste não difere assim tanto da vida na peste. Quem ama, continua a amar. Quem sofre, também. Os sentimentos e os comportamentos não se alteram senão em pequeninas coisas. O contágio, na verdade, torna-se apenas uma fatalidade, como a morte fora da peste, um azar desses que acontece, e a interiorização de uma tal ordem natural das coisas é o que mantém a vida largamente inalterada. Ainda que os funerais sejam progressivamente proibidos, que o porto esteja fechado ou que os produtos comecem a escassear, a vida mantém-se nas conversas de café, nas gentes pela rua, e nas salas de cinema sempre cheias.

Será, talvez, por isso que o fim da peste, tão ansiosamente esperado nas mentes dos cidadãos de Orão, não traz de imediato novos filmes ao cinema local, nem sequer novos produtos aos cafés. E quando traz pessoas através das portas novamente abertas da cidade, as relações com elas nem sempre se revestem dos sentimentos ampliados pela impossibilidade de as ter próximas. As saudades são colmatadas ou esquecidas, os amores reencontrados ou extintos. O fim da peste não faz surgir de novo a vida, na forma das paixões e vícios há tanto desejados, e isso talvez porque a vida, apesar da peste, nunca deixou de o ser.

Ora, se a peste se tornou indissociável da vida, na cidade de Orão, Argélia, nos anos 40, convém que em Portugal, em 2012, a crise não a imite nem seja interiorizada como mais uma dessas fatalidades inescapáveis que por vezes saem ao caminho dos Homens.

Hugo Picado de Almeida

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