Livros, Pensamentos

Os livros desconhecem os seus autores

O poeta T.S. Eliot  terá um dia confessado murmurar habitualmente um «que descanse em paz», ao ver um poema seu impresso e editado. Quis ele dizer, como o escritor português Manuel António Pina relembrou na edição deste ano do Corrente d’Escritas, que, “De facto, a publicação é uma forma de morte”. Falava-se da ignomínia que é um autor reescrever a sua obra numa nova edição, e provavelmente falava-se bem.

Ainda assim, a obra, uma vez escrita, não morre; na verdade, ganha vida. Ao libertar-se do seu autor – como diz, e bem, Abel Barros Baptista, felizmente que os livros não trazem consigo o palerma do seu autor −, o livro permite que cada leitor o interprete, ou desinterprete, da forma que bem entender. Na verdade, não é o livro que morre quando editado. Quem morre, isso sim, é o seu autor, ou pelo menos a possibilidade que este tem de falar pelo livro. Os livros existem para que não tenhamos de ouvir o autor. Caso contrário, o leitor mantinha-se apenas ouvinte: isso dava-lhe bem menos trabalho e, provavelmente, até lhe saía mais barato.

Quando T.S. Eliot reza o seu «que descanse em paz» está na verdade a pedir «que eu descanse em paz, pois nada mais posso fazer pelo que acabei de escrever; o texto terá agora que se valer a si mesmo, e provar-se bom sozinho».

Afinal, será que os grandes livros, despidos da capa que os identifica, continuam a ser bons e a merecer a nossa admiração?

 

Hugo Picado de Almeida

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