Pensamentos, Viagens

Escritos de Nova Iorque #4

 Dizemos que a sociedade americana é a sociedade do espectáculo por excelência. Temos razão.

Só isso pode explicar o que tive oportunidade de ver, outro dia, ao entrar na St. Patrick’s Cathedral em Nova Iorque: o recém nomeado cardeal norte-americano, Timothy Dolan, deambulava pelo altar – convertido em palco −, com uma pose em tudo semelhante à de um apresentador de talk show: alguns passos para a esquerda, aquela paragem incerta para dizer algo, duas passadas para trás, um certo balanço nas pernas, uma incursão ao lado direito do palco para nova punchline. O tom era coloquial, o pregador dizia piadas e ria-se, a audiência ria também, soltava exclamações e batia palmas. No final do set, o cardeal desceu a nave central da catedral imerso em aplausos; cumprimentava as pessoas e falava com as crianças. Ouviam-se Way to go!, Yeah!, Congrats! e mais uma série de incentivos e felicitações, e por alguns momentos esperei mesmo vê-lo sacar de uma caneta para distribuir autógrafos.

Nada mais distante das cerimónias religiosas europeias, onde parece praticar-se o luto permanente, onde o ar é pesado e talvez os clérigos também, quase sempre enterrados no seu trono ou semi-escondidos atrás do altar; e nada mais próximo dos comícios políticos – esses mais parecidos dos dois lados do Atlântico, ainda assim −, onde as figuras centrais param nos corredores para conversar com e beijar crianças, para distribuir apertos de mão e abraços.

Hugo Picado de Almeida

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