Pensamentos, Viagens

Escritos de Nova Iorque #1

Algures n’ A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera escreveu que, para encontrar a beleza, «primeiro é preciso furar a tela do cenário».

Julgo que podemos interpretá-lo de duas formas: uma, certamente aquela pensada por Milan Kundera, refere-se à necessidade de fugir aos artifícios, de estender a mão além da fachada das coisas, além das aparências e dos ecrãs − véus estendidos sobre o real; outra, que me pareceu possível, refere-se ao próprio cenário. Quando Kundera diz que é preciso furar a tela do cenário, talvez isso signifique apenas que é preciso descobrir o cenário no cenário, isto é, romper a ilusão para a perceber como ilusão, e poder assim admirá-la.

Convenhamos: a beleza no cinema não é a de o ver como realidade, de nos deixarmos enganar pelo como se − talvez seja por isso que o 3D tem sido alvo de tantas críticas −, mas a de o inscrever como um maravilhoso resultado de uma multiplicidade de brilhantismos técnicos desenvolvidos pelo Homem. A beleza no cinema é a de saber que se trata de cinema. As outras artes, e a vida ela própria, seguem a deixa.

Nova Iorque é, também ela, assim. Nova Iorque apresenta-se-nos e afirma-se como um gigantesco cenário. Não quer que acreditemos nela; quer, isso sim, que percebamos o cenário que ela é, a maravilhosa construção que se nos quer oferecer como espectáculo, e que a admiremos por isso. Em Nova Iorque, a actriz − porque Nova Iorque talvez não seja verdadeiramente uma cidade −, devemos reconhecer a espectacularidade do seu desempenho, e devemos agir nela como actores também. Ninguém pede que nos sintamos em casa, ou que a habitemos. Pedem-nos, isso sim, e a todo o momento, que desfrutemos, que entremos na corrente, que a aceitemos como aceitamos aquilo que se passa dentro de uma tenda de circo ou de um qualquer teatro. Em Nova Iorque apreciamos o espectáculo. É por isso que, ao visitá-la, nunca imaginamos que lá possa viver gente toda uma vida. Será possível trabalhar ou estudar lá durante um tempo, como resultado do fascínio que faz de Nova Iorque um imenso íman, mas assim como saímos da sala de cinema ao fim de duas horas, é também necessário que acabemos por sair de Nova Iorque. É necessário que o espectáculo continue espectáculo, e devemos por isso evitar que ele se torne ilusão.

***

Em Nova Iorque, vive-se como num imenso déjà vu. É por isso que, estando lá, chegamos a duvidar de lá estarmos mesmo. Nova Iorque parece-nos mentira porque os filmes nos parecem reais. É porque os tomamos pela realidade que a realidade nos parece artificial produto de contrafacção, e é por isso que, ao ver os táxis amarelos, os delis e os diners, os porteiros dos edifícios e as condutas de vapor a fumegar, dizemos uma e outra vez: «É mesmo como nos filmes.»

 

Hugo Picado de Almeida

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