Livros, Pensamentos

A beleza aqui ou ali

Algures n’ A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera escreveu que para encontrar a beleza «primeiro é preciso furar a tela do cenário».

Julgo que podemos interpretá-lo de duas formas: uma, certamente aquela pensada por Milan Kundera, refere-se à necessidade de fugir aos artifícios, de estender a mão além da fachada das coisas, além das aparências e dos ecrãs; queimar os véus estendidos sobre o real para aceder ao puro real; outra, que me pareceu possível, refere-se ao próprio cenário. Quando Kundera diz que «é preciso furar a tela do cenário», talvez isso signifique apenas que é preciso descobrir o cenário no cenário, isto é, romper a ilusão para a perceber como ilusão, e poder assim admirá-la.

Convenhamos: a beleza no cinema não é a de o ver como realidade, de nos deixarmos enganar pelo como se — talvez seja por isso que o 3D tem sido alvo de tantas críticas –, mas a de o inscrever como um maravilhoso resultado de uma multiplicidade de brilhantismos técnicos desenvolvidos pelo Homem. A beleza no cinema é a de saber que se trata de cinema. As outras artes, e a vida ela própria, seguem a deixa.

Hugo Picado de Almeida

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