Pensamentos

Caminhos inversos

Penso melhor a andar, sempre o soube. E um dia ainda haverá um cientista, possivelmente laureado com um Nobel, que descortinará esta ligação profícua entre o cérebro e o pé.

Não é fácil criar quando se está fechado. É a andar que se descobre, a ver que se cria, a ouvir que se reflecte. É preciso sair à rua, porque até o surrealismo deve conhecer o real, para poder ser bem sucedido.

Foi a andar, por exemplo, que noutro dia encontrei os Homens da Luta em plena Avenida da Liberdade. Estavam sozinhos, vestindo as personagens, mas sem câmaras nem uma equipa atrás. Estavam sozinhos, e isso tornava tudo mais estranho. Ou então não. Ali, sozinhos, sem jornalistas ou apoiantes, na sua vestimenta antiquada, ocorreu-me que os Homens da Luta já não eram mais a caricatura. A conjuntura fez deles, poderia dizer-se, homens iguais a todos nós, indivíduos anónimos, massa partilhadora de discursos.

Para levar os Homens da Luta da caricatura ao retrato bastaram umas poucas medidas económico-sociais dotadas de pouca razão. Curiosamente, essas mesmas medidas foram o que bastou para levar os nossos governantes do retrato à caricatura.

 

Hugo Picado de Almeida

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