Política

A Arena da República

Da mesma forma que a Assembleia da República não é tanto uma Assembleia mas mais uma Arena, a República a que essa Assembleia pertence também não é já muito uma República [res publica], mas sobretudo um sítio de má rês.

Não embarco na conversa de que todos os políticos são iguais; nunca achei que o fossem. O que acontece é que são facilmente engolidos pelo sistema – aí tornados virtualmente homogéneos -, porque só reproduzindo os seus agentes pode o sistema auto-preservar-se.
Se um partido se escusa a entrar na política-espectáculo da argumentação estéril, das reacções e das reacções de segunda ordem, é por todos assumido que quem falou tem razão, ou que quem não falou se colocou à margem da questão. A isto não são alheios os media, que só conseguem entender as acções em função de uma lógica de debate, de confronto, de batalha, uma sede de maniqueísmos que lhes facilitam o trabalho e, certamente, o entendimento do público. Pouco importa se a realidade é mais complexa, ou outra; ela deixa de existir ao entrar no discurso mediático.

Se é claro por que razão a Assembleia é sobretudo uma Arena onde os deputados exercitam os seus dotes oratórios e argumentativos, por que razão não estamos já tanto numa República?

A nossa República, como a nossa Democracia, já não são tão representativas quanto seria de esperar; hoje, são essencialmente de representação, de mimetização de antagonismos, e é isso que não podemos deixar de sentir ao assistir a uma sessão no canal Parlamento. Não é que os políticos não queiram resolver os problemas; a questão é que facilmente se perdem nos excessos argumentativos de quem passa demasiadas horas colocado num cenário que incita à discussão. Sintomático disso é que as verdadeiras decisões sejam tomadas nas várias sedes parlamentares, nas comissões e grupos de trabalho, nos «passos perdidos» da Assembleia da República – e, inevitavelmente, na Maçonaria e outras sociedades secretas. No plenário tem apenas lugar o espectáculo da política, concurso televisivo destinado a entreter a audiência à hora de jantar, encenação caricatural da luta dos partidos.

 

Hugo Picado de Almeida

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