Pensamentos

Energia e Suicídio

Em antigas culturas indígenas, o suicídio era muitas vezes alcançado pelo acto de se lançar ao mar e de nadar perpendicularmente à costa, para o mar alto, até que não restassem forças para voltar – o sacrifício do corpo pelo esgotamento da energia.

Hoje, é isso que se tornou intolerável, insuportável: o sacrifício da energia sem objectivo. Na nossa cultura (pós-)moderna, deixou de ser possível não ter um propósito, deixou de ser possível desperdiçar energia. É esse o triunfo da nossa ecologia, o de aproveitar tudo: apagar as luzes, poupar água, fazer exercício. Com que objectivo? O de ter mais luz, mais água, e de aumentar a capacidade de fazer mais exercício, mas não só.

Mesmo não fazer nada se tornou produto dessa lógica; converteu-se em procrastinação, apenas o adiar do trabalho mas!, gloriosa inversão, também momento útil ao bom desempenho do trabalho. O não fazer nada foi incorporado, apenas como mais uma etapa, na lógica da produção, e aí o despimos de todo o seu interesse.

É assim que o suicida de hoje já não se suicida verdadeiramente. Acaba com a vida, é certo, mas já não atenta contra mais nada; já não o deixam gastar nada porque talvez já nada seja seu para gastar, nem mesmo a sua própria energia. A única coisa que lhe resta é deixar de gastar seja o que for.

 

Hugo Picado de Almeida

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