Pensamentos

Processos

É conhecida no mundo da teoria fotográfica uma espécie de anedota que se conta assim:
Uma amiga diz «Que bonito que é o teu filho!», ao que a mãe responde «Oh, isto não é nada. Havias de ver era a fotografia dele!» [1]

Quem estuda estas coisas detém-se habitualmente no carácter aurático das fotografias, na dimensão mágica e misteriosa para que remete quem ou o que nelas figura. Seria, muito provavelmente, isso que acontecia com a «fotografia dos mortos», estranha prática que esteve na moda durante várias décadas desde a invenção da fotografia, e que só sob essa luz seria certamente suportável.

Não sei ao certo por que vos falo disto hoje, mas é também este um processo legítimo, o de ir criando à medida que se avança; nem tudo tem de estar definido à partida. É o que acontece na fotografia, por exemplo. O seu resultado nunca é exactamente aquilo em que pensámos, ou aquilo que vimos ao espreitar pela máquina. Em toda a produção – a criativa, pelo menos (se é que há outra) -, há uma parcela reservada para o imprevisto, para a inspiração verdadeira, para a surpresa própria, para a criatividade do momento. Aliás, não é senão aí que reside o processo criativo, o processo construtivo dos objectos com valor artístico: nas surpresas últimas da sua criação, nas misteriosas ocorrências que o modelam, até porque, em boa verdade, não é senão isso que diferencia a arte de um qualquer cálculo matemático.

Eis-nos, então, aqui enquanto a prova desse argumento, dessa errância discursiva que acaba sempre por produzir algo, mais ou menos relevante. Mas, recuperando a anedota e em jeito de fecho: Haviam de ver era a ideia que eu tinha para este texto!

 

Hugo Picado de Almeida

__________

[1] Marshall McLuhan, Compreender os Meios de Comunicação – Extensões do Homem, Relógio d’Água (2008).

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One thought on “Processos

  1. A experiência pessoal e profissional ensinou-me até hoje que devemos ter sempre espaço para o imprevisto, seja ele positivo ou negativo. É fácil destacares-te quando tudo corre bem, mas são os verdadeiros “artistas” aqueles que lidam da melhor forma com o que nunca poderiam esperar.

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