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O eterno retorno

Ontem, ao rever o filme Destruir depois de Ler, fixei-me sobretudo no título. Destruir depois de Ler…A fórmula «destruir depois de ler» exige uma forte crença na subvalorização da palavra – e, bem assim, uma confiança absoluta naquele que lê. É que a palavra, depois de dita (ouvida) e depois de escrita (lida) deixa o domínio de quem a enuncia, passando o seu sentido a ser feito pelo seu novo proprietário, ainda que mantenha a assinatura geralmente indelével do seu autor.

Ao pensar nisto lembrei-me da ideia de «eterno retorno», ideia original de Nietzsche com que Milan Kundera abre a sua A Insustentável Leveza do Ser. E se Kundera a usa para dar exemplo do novo significado que os eventos poderiam tomar por deixarem o simbólico e entrarem novamente no real, parece-me que é nas palavras que o eterno retorno já se concretiza plenamente, porque elas não deixam de soar.

Foi isso, por exemplo, que Passos Coelho experienciou ao colocar Catrogas e Cardonas na EDP. De imediato retornaram à corrente do real as palavras que proferiu na oposição: «Nós não queremos um Estado que manda na Administraçäo e ainda nomeia gestores de empresas privadas.»
(Abril de 2010)

Destruir depois de ler é um acto impossível.

Hugo Picado de Almeida

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