Ficções

O estranho caso de…

Apareceu-me, noutro dia, um homem com uma maleita daquelas que não vêm nos compêndios. Era um paciente, claro está, que homens dos outros – dos sãos – não me visitam. Sofria de uma estranha condição, uma patologia nunca antes verificada, daquelas que valem a publicação de artigos nas melhores revistas da especialidade e, quem sabe, até um Nobel, no caso de se alcançar tratamento eficaz ou uma vacina preventiva. E que bom seria consegui-lo, eu que nunca triunfei em nada!

O homem que me apareceu, noutro dia, entrou na sala calado. Trazia na mão uma pequena geringonça onde escrevia muito rapidamente com os dedos, fazendo um toc toc toc curioso e que eu me lembrava de já ter ouvido algures. Por cima do sítio onde escrevia, uma superfície luminosa ia transmitindo aquilo que ele pretendia dizer. Era, para todos os efeitos, como se o dissesse realmente. Acontecia, porém, que o homem não falava de todo, e era isso que o incomodava. «Como palavras», escreveu. «Em vez de as falar, engulo-as». Era óbvio que a situação lhe causava grandes transtornos, e não me foi difícil, desde logo, começar a enumerar os mais óbvios. Por respeito ao paciente, fi-lo em silêncio.

Perguntei-lhe, então, se se alimentava bem, não fosse o vício de merendar palavras nutrido pela gula necessária que comanda os famintos. Respondeu-me que sim. Escreveu que fazia três refeições por dia e um pequeno lanche entre cada uma.

Perguntei-lhe se tinha gatos, já que é da sabedoria proverbial conhecido que tais felinos têm, por vezes, a infeliz ideia de comer a língua aos mais desprevenidos. Respondeu que não, que de gatos só tinha o medo.

Surpreso com a dificuldade do diagnóstico, resolvi então perguntar-lhe, como que para desanuviar a conversa, de que se ocupava ele. Escreveu – de resto, com todo o sentido – que era escritor. «Dos sérios.», acrescentou. Pedi-lhe que voltasse no dia seguinte com todas as folhas em branco que tivesse em casa, assim como todos os lápis e todas as canetas.

No dia seguinte, quando nos reencontrámos, tomei-lhe nas mãos todos os lápis e canetas, folhas brancas e ainda aquela engenhoca que usava para comunicar. Atirei tudo pela janela. De imediato, e já de viva voz, respondeu: «Obrigado.»

Hugo Picado de Almeida, Médico Charlatão

charlatão (do italiano ciarlatano)
adj. s. m.
1. [Antigo]  Que ou quem é inculcador de drogas, elixires e segredos de muito préstimo.
(…)
4. Que ou quem exerce medicina de maneira incompetente ou sem estar habilitado.

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