Mitos, Pensamentos

2012

Ainda não tinha publicado nada neste ano que estamos agora a estrear, e bem sei que nos últimos dias do ano passado também nada aqui escrevi. Há, no entanto, boa razão para isso: importava deixar 2011 morrer tranquilamente, guardando o luto e o silêncio necessários, e os leitores farão a gentileza de concordar comigo em considerar que de assinalável mau gosto seria vir aqui brindar a chegada de 2012 com pompa e circunstância, esquecendo de imediato a queda em desgraça do ano transacto. Não se pense, portanto, e é isso que é preciso evitar pensar, que a preguiça triunfou finalmente, ou que as festas características da época varreram qualquer desejo de aqui voltar.

Voltemos, então, com algo útil para dizer:

Temo bem que este ano vá ter demasiada matéria para abordar, e não falo aqui da crise, porque não quero perpetuar o discurso emulador do poder. Só o discurso da crise permite a existência da crise. Falo, entre outras coisas, da paranóia que se instalará sobretudo pelas américas, com o aproximar de Dezembro próximo, de que este seja o último ano a que assistimos. Como dizia Baudrillard, a nossa cultura é uma cultura que só tem imaginário do seu fim, uma cultura niilista, portanto – Hollywood (como a literatura) tem sido exemplar em demonstrá-lo, com filmes como Guerra dos Mundos, 2012, Contagion, I Am Legend, e tantos outros que propagam a ideia de o mundo depois de nós. O próprio terrorismo é prova do nosso niilismo – «é estar obecado pelo modo do desaparecimento, e já não pelo modo de produção» (Baudrillard) -, e assim também o é todo o discurso político e todo o discurso religioso, munidos do discurso do terrorismo, da guerra, do juízo final, do apocalipse, do nuclear e das pandemias e, claro, o da crise.

O capitalismo – os modos de produção –  só sobrevive pelo fascínio do fim: é assim com a indústria bélica, com a indústria farmacêutica, e é assim também com todas as outras indústrias, quando a crise entra em cena para lhes dar o sentido que lhes escapava pela aparência da segurança e da saúde, pela aparência da democracia, pela aparência da paz.

 

Hugo Picado de Almeida

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9 thoughts on “2012

  1. Bruno Cardoso diz:

    Tudo o que disseste, mais a religião. O seu fascínio pelo fim, a sua doutrina dogmática da vida eterna (eterna e imaterial, logo, supostamente mais elevada que a “terrena”) contribui em grande escala para o ideário de que falas.

  2. O “fascínio do fim” de que falas é um conceito que faz bastante sentido… nunca tinha pensado desta forma, apesar de pensar bastante na forma como todos vivemos obcecados pela desgraça. Quem sabe se não é assim porque é disso que vive o capitalismo: queres sempre mais. E como podes querer mais num mundo onde — teoricamente — já tens condições para ter tudo? Criando novos problemas e consequentemente novas soluções.

    • É isso, Roberto. É a lógica capitalista que comanda a sociedade. E já que estamos na esteira do Baudrillard, continuemos: o querer mais num mundo onde já temos tudo, como referes, é o que leva a uma das perguntas que ele encena no livro “America” (nem de propósito!): «What are you doing after the orgy?».
      É este o sintoma de uma sociedade plena onde, tendo-se alcançado o máximo, parece agora restar a paranóia do mínimo, do resíduo, do fim.

        • Certo; o “máximo” aqui pode ser um conceito muito ambíguo, e se o capitalismo se reinventa constantemente, reinventa também novas necessidades relativamente a momentos anteriores e, por isso, novos máximos que desejar.
          Mas quando falava aqui no máximo falava essencialmente no acesso que hoje temos a tudo, em termos absolutos. Hoje, podemos aspirar a ser qualquer coisa; podemos ver tudo, ter tudo, fazer tudo. Tudo tem um preço, é certo, mas talvez por isso tudo possa ser alcançado.

          • “Tudo tem um preço, é certo, mas talvez por isso tudo possa ser alcançado.”

            Right you are. Excepto que muitas vezes ter “tudo” não é ter as coisas certas. O capitalismo pode reinventar-se as vezes que quiser, mas ao fim ao cabo o que queremos é felicidade, signifique isso o que significar (depende de cada um de nós). E também não somos felizes se temos tantas escolhas que não sabemos para onde nos virar.

            Sobre esse tópico, nada como dar a voz ao meu caro Barry Schwartz: http://www.ted.com/talks/barry_schwartz_on_the_paradox_of_choice.html

            • O ponto é que a possibilidade de escolher e de ser, ou de “escolher ser”, existe.
              Mas sem dúvida que sim, Roberto. Excelente, essa Tedtalk do Barry Schwartz, a propósito; nunca a tinha visto.
              O perigo da situação é precisamente esse; é aí que ele reside. É porque podemos escolher tudo, porque podemos ser tudo, que as escolhas se podem tornar tão inquietantes e tão fracturantes; porque sabemos que há a possibilidade real de fazer escolhas erradas, ou porque não sabemos o que escolher, de todo.

            • A solução a meu ver é saberes filtrar as tuas opções. Outrora fomos dominados pela escassez e, como dizem alguns velhos do restelo, “era tudo mais simples”. Novos tempos, novas formas de adaptação. Errado é saber que podemos ter tudo e querer efectivamente tudo.

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