Pensamentos, Pessoas

Um catálogo de gentes

Não quero desiludir nem ofender ninguém, mas os hispters são, eles próprios, o triunfo da massa de que se pretendem distinguir, a vitória de uma lógica arquivística, categórica, de arrumação do social.

É essa a forma da sociedade responder aos fenómenos que a tentam negar: hippies, beatniks, punks, etc. Foi assim com a música alternativa e é assim, agora, com os hipsters. Ao dar-lhes um nome, ao constituí-los como um grupo objectivável e, sobretudo, como um público para o marketing – a lógica que rege as sociedades de massas -, aniquilou-os.

E a culpa não é de ninguém. A sociedade é que não pode funcionar senão assim, categorizando o desviante como desviante, para que todos possam sobreviver na sua forma expurgada, higienicamente arquivados e identificados, já sem possibilidade de causar qualquer dano ao ensemble das gentes e das normas.

Percebo que as categorias sejam úteis, mas irritam-me. Todas elas. E tanto piores são quando voluntariamente nos inscrevemos nelas.

 

Hugo Picado de Almeida

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3 thoughts on “Um catálogo de gentes

  1. O problema aqui é que os hipsters não se afirmam hipsters, porque supostamente não são rotulados nem “rotuláveis”. As categorias são úteis mas muitas vezes conduzem ao estereótipo, e eu pelo menos não conheço ninguém que goste de passar por um mero estereótipo previsível. Já no que toca a falar dos outros…

    • Aquilo que verifico diariamente é que os hipsters são o grupo/corrente/coisa que mais publicita aquilo que é. Poderás dizer-me que esses não são os verdadeiros hipsters, mas o problema mantém-se; ou pior, agrava-se. Mas mesmo que eles não se rotulassem assim, de nada lhes serviria. Tudo é rotulável porque tudo pode ser traduzido pela língua em comunidade significante: tudo, mesmo quem não quer ou até quem pareça não ter nenhuma característica identificativa – é isso que significa ser “normal”, por exemplo; ser normal não define nada em concreto; define, apenas, que não se pertence a nenhuma das categorias “não normais”.

      Sim, claro que as categorias são úteis, e é esse o seu perigo. Elas são nocivas porque as pomos a uso, porque nos permitem dialogar com sentido comum. Concordo com o que dizes, que ninguém goste de passar por um estereótipo (apesar de “ninguém” ser, aqui, talvez uma palavra demasiado optimista), mas o problema é que as pessoas não têm disso noção quando se inscrevem numa tal categoria. Afinal, a sociedade somos nós. E se a sociedade precisa de categorias para bem controlar, talvez nós precisemos de categorias para nos orientarmos nela.

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