Pessoas, Política, Viagens

Descendo a Avenida da Liberdade

Passear na Avenida da Liberdade é algo que faço sempre com grande prazer, sobretudo quando os dias estão assim frios mas solarengos. Gosto do ambiente, da arquitectura dos edifícios, dos cafés e dos passeios, das amostras de jardins e riachos que neles correm, como que esquecidos ou indiferentes ao facto de terem existência ali, no centro da cidade, na mais cara avenida de Lisboa.

Gosto de tomar o pulso à vida que por ali passa; a rua inclinada é um bom barómetro das gentes.
Vejo os homens de fato e gravata que andam sempre em bandos; os homens de fato e gravata e boné dos New York Yankees na cabeça; um par de executivos britânicos parados no meio de uma passadeira com um portátil e livros nos braços; ali mais adiante, um casal que assina um contrato à mesa de uma tasca; aqui um valet de hotel que carrega um carrinho de malas e faz sinal a um táxi que escorrega pela lateral da Avenida; ali um arrumador; logo de seguida, um homem meio trôpego que já leva o depósito atestado para o resto do dia; ali um homem que me faz lembrar o Ministro da Economia, mas que vem a pé da decrépita Travessa da Horta da Cêra – não pode ser ele, portanto; não por vir de onde vem, mas por vir a pé -; depois uma mulher elegante e sedutoramente bem vestida que atravessa a rua perto de mim – divirto-me a ver os condutores parados no semáforo que lhe seguem as pernas com o olhar -; à porta do Parque Mayer os fantasmas que agora ali resistem e residem; junto ao Ascensor da Glória, os despojos da noite anterior, que veio descendo do Bairro Alto até ali perder a chama, entrando na avenida que exige o seu respeito, e que obriga os moinantes e foliões a dispersar para outras paragens mais sóbrias.

Mas passear na Avenida não é apenas interessante numa perspectiva cultural, nem pode, sequer, ser apenas um singelo passeio. Passear na Avenida é também uma importante lição política. Seja qual for o lado do amplo arruamento que escolhermos, seremos sempre brindados por um desfile de lojas selectas e preços concordantes, sendo assim lembrados de que esta crise do Euro, que é também uma crise da democracia, não é, de todo, uma crise democrática.

 

Hugo Picado de Almeida

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