Livros, Pessoas

Os livros dos mortos

Há uma coisa que sempre me causou estranheza – bom, na verdade, há várias -, que sempre me provocou um desconforto intelectual daqueles que obrigam a escarafunchar a frontaria, mais ou menos perto das têmporas, onde o assunto logra promover certa comichão.

Não sei se repararam, mas poucos dias após a morte do Steve Jobs, havia já não um, mas sim quatro livros sobre a emblemática figura do mundo tecnológico. Mais, refiro-me aqui apenas aos que têm tradução portuguesa. Ora, aqui não se trata sequer de «uma questão de fazer as contas», como diria um antigo Primeiro-Ministro português, mas de algo muito mais simples. Dois destes livros saíram no mesmo mês em que Steve Jobs feneceu, os dois que restam saíram no mês seguinte. Sendo que uma tradução não se faz do dia para a noite, bem como a impressão de uma edição e sua distribuição, resta-nos concluir que ainda Steve Jobs respirava quando as palavras dos livros procuravam já extingui-lo.

Sejamos claros a este respeito: só em casos muito raros os livros se reportam, pelo menos elogiosamente, a quem está ainda vivo. Mais frequentemente os livros falam dos mortos, e nada de errado há com isso. Sabemos que os livros sobrevivem aos seus autores, mas, sempre que o dizemos, esquecemo-nos do resto: os livros sobrevivem a toda a gente, e nós só podemos sobreviver através deles.

Os livros não são do mesmo mundo que os vivos; é essa a razão, aliás, pela qual, assim que os compramos, vamos a correr colocá-los nas estante das nossas bibliotecas pessoais, espécie de cemitério de livros como os nossos próprios cemitérios, registo de corpos e de gentes, impressas nas páginas com a mesma possibilidade de sobreviver como nas letras gravadas na pedra dura das lápides.

É, por isso, preciso ter atenção. Se um dia assistirem à publicação de um livro sobre vocês mesmos, é provável que as engrenagens do mundo tenham começado a rolar em vosso redor, e a vida, ameaçada, tornar-se-á subitamente um lugar hostil. Um livro não deve conviver com o seu objecto.

 

Hugo Picado de Almeida

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