Livros

A (in)justiça nas estantes

Um dia destes, ao ordenar os livros na minha modesta biblioteca, percebi quão injusta a vida pode ser, mesmo quando as razões são as melhores.

É que, convenhamos, nem a mais bem intencionada lógica arquivística, obedecendo a categorias e a temas, pode desculpar o facto de sentar o Mein Kampf, de Adolf Hitler, ao lado d’A Condição Humana, de Hannah Arendt. Felizmente ainda tive o discernimento suficiente para pôr um par de livros de Heidegger, amante desta última, e membro do partido Nazi, numa outra prateleira.

Ao mesmo tempo, ao lado de uns livros do Saramago, acabaram por ficar, mais pelo acaso e pela coincidência de também serem autores portugueses, um par de escritores muito pouco conhecidos, daqueles, até ao momento, de obra única. Não o fiz de propósito e também despropositadamente não o desfiz.

Como nos dizia o Professor Abel Barros Baptista, os livros tornam-se independentes do seu autor (e na maioria das vezes, felizmente!, dizia ele. O que seria termos o autor ao nosso lado, espreitando-nos sobre o ombro, enquanto lemos uma obra?), mas será que os caminhos que tomam os seus exemplares não lhes importariam, se eles pudessem saber por onde se passeiam eles? Não é tanto que eu tema que um livro quase anónimo, sentado ao lado do Saramago, possa ser por essa proximidade elogiado e tornado literatura; temo, isso sim, que o exemplar do Saramago se possa ressentir e vingar-se da próxima vez que eu o abra para o ler.

Dizia o Professor Abel, na edição de Junho passado da Revista LER, que «cada livrinho individual só é possível por trazer em si, não o palerma do autor, mas uma ideia do que são em geral os livros de literatura». Parece-me que ele poderá ter razão e, por isso, não resisti a sentar o exemplar do livro que tem o meu nome na capa ao lado desses grandes vultos da literatura, esperando que, assim como a madeira faz bem ao vinho, a companhia na estante lhe faça bem a ele.

Hugo Picado de Almeida

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One thought on “A (in)justiça nas estantes

  1. Custódio Nunes diz:

    Adorei isto!
    Há pouco tempo deparei-me com um problema semelhante no meu sotão-biblioteca, ao arrumar as estantes todas outra vez. Acabei com uma tragicomédia, num palco algo dúbio, a que chamamos estantes, onde havia Paulo Coelho ao lado de Saramago, Nicholas Spark com o seu vizinho Allan Poe e tantos mais, que não me recordo por estes serem os de mais significado.

    Que belo retrato dos maneirismos pormenorizados, inerentes à condição humana.

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