Pensamentos, Política

O Círculo e o Circo

O Círculo Polar Árctico roça um canto do Hospital Sta. Maria, em Lisboa. Se não roça, disfarça bem.

Ontem, ao passar pelo dito Hospital ao fim da manhã, havia um montículo de neve, suficientemente grande para encher duas mãos postas em concha mas insuficiente para muito mais do que isso. Esta manhã, quando lá voltei a passar, ia precisamente a pensar nesse improvável ajuntamento de cristais, certo de que ele já não estaria lá e imaginando já uma voz dentro de mim a dizer: «Esperavas encontrá-lo ainda aqui? Ora, toma!», e estava até já decidido na minha mente delirante que ele ergueria o punho ameaçador para mim, tal como o fazem as vítimas do “Grande Urso” dos anúncios do Metropolitano de Lisboa.

No entanto, como pronto castigo para as minhas suposições, a tal porção de neve lá se mantinha, ainda que o monte tivesse sido agredido e se apresentasse agora desfeito aos olhos dos transeuntes. Não ouso sequer imaginar que espécie de neve resiste com tanta teimosia num pedaço de alcatrão de uma Lisboa de temperaturas ainda razoáveis para humanos mas insuportáveis para a neve, sobretudo quando isolada assim em ilhas, e apressei-me a sair dali.

Não acredito no destino, mas não posso deixar de me admirar com a coerência que muitas vezes liga os acontecimentos mais aparentemente díspares. Ao ligar o computador, deparei-me então com a notícia de que, na Madeira, qual território independente, a lei parlamentar foi alterada. A partir de agora, “os votos de cada partido presente são contados como representando o universo de votos do respectivo partido ou grupo parlamentar”. O PSD pretende, assim, garantir que, mesmo com deputados ausentes, nenhuma das medidas da oposição seja aprovada. Confesso que a minha veia democrática, subitamente acometida por arrepios que, na Madeira, não são nunca causados pela temperatura mas sim pelo aspecto circense de todas as suas instituições, me gelou um bocadinho.

Ocorreu-me, então, que se o Círculo Polar Árctico se tivesse deslocado para passar tangente ao Hospital Sta. Maria, seria de todo natural que o clima político dessa “Pérola do Atlântico” se tornasse também ele gélido, agreste como os suspiros siberianos que dão forma ao Inverno.

 

Hugo Picado de Almeida

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