Pensamentos, Política

Eufemismo matemático

Há uns anos atrás roubaram-me um saco de desporto de um balneário. Quando fiz queixa na polícia, o agente de serviço disse-me que não podia escrever na queixa “roubado”, nem mesmo “furtado”, e explicou-me que aquela força de segurança pública preferia usar o termo “subtraído”, que não partilhava da carga negativa dos restantes e mais habituais vocábulos. Portanto, ficou registado que me foi subtraído um saco de desporto, como se isso se destinasse a fazer-me sentir melhor. Afinal, não tinha sido roubado: apenas me tinham subtraído, numa bela operação aritmética, algo que me pertencia. Imagino que o mesmo se diria se um acidente de comboio me tivesse subtraído um braço, ou se o medo um dia me subtraísse a coragem. Se calhar a própria morte é apenas, eufemisticamente mais agradável, uma mera subtracção da vida.

Pensava eu nisto, porém, quando (mais uma vez) ouvi o Governo falar na “necessária subtracção dos subsídios de férias e de Natal”. Lá vinha de novo a malfadada subtracção, como na minha queixa na esquadra em que era proibido falar de roubos. O que aquele polícia me explicou, há uns anos atrás, tornava-se agora claro: Se não chamarmos as coisas pelos nomes, pode ser que as pessoas não dêem por elas.

 

Hugo Picado de Almeida

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