Crise, Livros, Política

Portugal no País das Maravilhas

Venho, hoje, apresentar-vos uma proposta inusitada: a de Portugal ter caído pelo mesmo buraco por onde caiu a Alice de Lewis Carroll. Que Portugal esteja metido num buraco, qual touperia obsessiva, nada de novo vem trazer ao mundo das ideias, bem o sei; que Portugal tenha resvalado pelo preciso rasgão na terra por onde já antes a Alice tinha caído, é já algo a não menosprezar, pelo menos não sem antes lhe concedermos o benefício da dúvida.

Em primeiro lugar, lembram-se porque caiu Alice no buraco? Por seguir um coelho aflito que gritava «Oh dear! Oh dear! I shall be too late!» Ora, Portugal tem também o seu coelho, peço desculpa, o seu Coelho, também ele – e não sem alguma razão – aflito por ser tarde demais para qualquer coisa, ainda que no caso do Estado lusitano não seja claro o que é que estamos a tentar salvar, ou tirar do buraco.

Esta é a primeira de muitas semelhanças entre as aventuras de Alice e as de um Portugal em crise. Também como acontece à jovem menina, o nosso velho país chega a um sítio com várias portas, e logo por um golpe do destino, aquela que parece conduzir a um jardim agradável, onde tudo deve ser bom, é precisamente aquela por onde o país é demasiado grande (e gordo, e endividado) para caber – ou para que o deixem entrar. Mas se Carroll era um mestre em arranjar soluções capazes de desafiar a lógica, a Europa tem-se revelado uma boa discípula, ora nos dando de beber de uma garrafa – um cocktail de dinheiros vários – que promete devolver-nos à nossa forma, ora nos ameaçando com os mercados e com a saída do euro e os juros, num curioso dualismo alcoólico de resultados desagradáveis como acontece à própria Alice, que, ao invés de caber pela porta, piora o seu tamanho de tal forma que rebenta com a casa pelo tecto.

Mas as similitudes não se ficam por aqui. As cimeiras europeias – ou a própria Assembleia da República em Portugal – ganharam contornos de uma “Mad Tea-Party”, em que eventualmente, como acontece a Alice, alguém acaba por se sentir insultado com tanta retórica vazia e diálogo sem propósitos benéficos, e onde o tempo nunca parece urgente, porque tão pouco parece passar, certamente parado na hora do chá, como diz o Chapeleiro do conto de Carroll.

Esperando não estar a estragar a analogia pelo exagero, vejo ainda em Alberto João Jardim uma espécie de Cheshire Cat, ou melhor, do seu sorriso, pois parece-me legitimado pela lógica histórica que ele resistirá muito depois de tudo o resto ter desaparecido, ainda que as parecenças faciais e anatómicas com o curioso gato não sejam também de desprezar.

Safar-nos-á, certamente, a esperança de que tudo não passe de um sonho, assim na vida real como no conto de Alice, e que rapidamente nos apercebamos de que, afinal, todos os pesadelos retorcidos não eram senão fruto de termos adormecido ao Sol sobre um banco de jardim estival. Torna-se, porém, difícil de acreditar nessa sorte, sobretudo quando parece já faltar muito pouco para que Angela Merkel, qual Rainha de Copas, comece a gritar: «Off with their heads!»

É certo que ainda não vi a interpretação Burtoniana do clássico de Carroll, mas temo que o estilo gótico-burlesco que se pode, desde logo, perceber no trailer, tenha sido mais inspirado pelo Portugal do século XXI do que por qualquer coisa que se pudesse passar na Inglaterra do século XIX.

 

Hugo Picado de Almeida

Anúncios
Standard

Escrever um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s