Crise, Política

Quando tudo está bem

O problema é tudo estar bem. Reformulemos: o problema não é tudo estar bem, o problema é tudo comportar-se como se tudo estivesse bem. Sim, o problema é precisamente esse, sobretudo política e financeiramente, nos Estados.

Vejamos: quando tudo estava bem, ou quando tudo parecia estar bem, a União Europeia funcionava perfeitamente, como um relógio suíço, poderíamos até dizer, esquecendo por momentos que a Suíça nunca meteu os pés na União. O bunga-bunga de Berlusconi ia sendo tolerado com risos e gracejos – afinal de contas, por que devia a Europa preocupar-se com o dinheiro dos contribuintes italianos? -, os finlandeses não se lembravam de que não gostavam dos portugueses, os alemães esqueciam-se de que não queriam pagar os erros da Grécia – porque já anos antes se tinham esquecido de pagar à Grécia os milhões que os gregos puseram em Berlim para recuperar a Alemanha no pós Segunda Guerra Mundial, e, bem vistas as coisas, todos nós nos esquecíamos de que ao deixar de produzir para comprar feito na Alemanha ou em França, estávamos a adiantar o dinheiro que depois nos iria ser emprestado com juros simpáticos, «para pagar já amanhã ou temos sarilhos!». (Quem me lê sabe que não sou proteccionista, e se compramos fora produtos de qualidade, encantado; acontece, porém, que eu também não me considere inteiramente parvo, e saiba como a UE tenha incentivado, com o distinto apoio do nosso não menos distinto – as razões deixo-as a quem as quiser enumerar – actual Presidente da República, que deixássemos de produzir um pouco de tudo.

Quando tudo estava bem, ninguém se importava com as agências de rating, e como elas até avaliavam bem a malta, que é o mesmo que dizer que talvez avaliassem mal, mas como era em nosso proveito, a consciência que se calasse e suportasse o benefício (sintomático disto é que hoje, a 9 de Novembro de 2011, a EDP venha dizer que a sua confiança nas agências da rating se esfumou).

Quando tudo estava bem, na Grécia havia espaço e dinheiro para que o Hospital Evangelismos, em Atenas, empregasse quarenta e cinco jardineiros (é isso, sim: 45) , quando o hospital tem apenas quatro arbustos (sim, sim, também é isso: 4), ou para que um carro oficial existissem cinquenta motoristas, ou que o lago Kopais, que em 1930 se encontrava já completamente seco, tivesse ainda em 2011 um Instituto com dezenas de funcionários do Estado dedicado à sua conservação. Confesso, porém, que já estou farto de ver bater nos gregos, e prefiro agora que se comece a bater nos portugueses – já se bate em muitos, mas refiro-me, por um lampejo de loucura, a bater naqueles que têm culpa. É uma ideia certamente peregrina, algo que ainda não tentámos. Quem sabe se poderá dar os seus frutos?

Mas agora que tudo parece estar mal… Reformulemos, agora que tudo está mais evidentemente mal, o lema da União Europeia (“In varietate concordia” – Unidade na diversidade) começa a sentir suores frios e a necessidade de alargar o colarinho da camisa. É quando tudo parece estar mal que as colectividades, tal como as pessoas que as integram, são postas à prova. Quando tudo está bem, unirmo-nos é fácil, e todos se suportam, as uniões são naturais.É quando tudo parece estar mal que uma União, acima de tudo, deve provar-se e mostrar-se forte, porque é para isso que ela serve, para quando as coisas estão mal. Afinal, por que precisaríamos de um Serviço Nacional de Saúde se as pessoas não ficassem doentes?

Para que a UE não se divorcie, é fundamental que ninguém levante a voz, nem o nariz, e que ninguém se diga melhor do que ninguém, porque todos têm fantasmas em algum momento da sua História.

Hugo Picado de Almeida

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