Crise, Pensamentos, Política

Como começou a crise, e por que vai ela continuar

Não sei se todos se lembram de como começou esta crise.

Era uma vez o subprime (crédito hipotecário de alto risco para o mercado imobiliário), que vivia nos Estados Unidos da América. Ora, como o subprime tinha na sua cabeça que era um bom-samaritano, um dia saiu à rua e começou a emprestar dinheiro a quem dificilmente o poderia vir a pagar. De empréstimo em empréstimo, as pessoas iam sobrevivendo entre a espada a fazer-lhes cócegas na garganta e a parede a comprimir-lhes as costas, até que um belo dia os juros subiram, as pessoas perderam as casas, e os bancos que as hipotecaram – eram a única garantia de pagamento – com o mercado imobiliário em queda, ficaram com elas na mão, sem compradores que lhes dessem valor. Foi assim que faliram os bancos, envenenados com pacotes destes imóveis impossíveis de vender que ficaram conhecidos por “activos tóxicos”.

Os bancos esqueceram-se de algo elementar:  nada tem valor intrínseco; tudo tem valor apenas na medida em que alguém se dispõe a pagar por isso dada quantia.

É, portanto, muito curioso e sintomático do estado de coisas que uma crise que começou com empréstimos impossíveis de pagar esteja agora a tentar ser resolvida com novos empréstimos – agora a Estados – que também nunca poderão ser pagos, ainda para mais com as taxas de juro impostas. Parece que não aprendemos nada, mas que continuamos todos reféns de um sistema financeiro que já deu provas de ser ineficaz, desequilibrado e injusto, que só pretende prolongar-se no tempo o mais possível. Isto, claro, a não ser que sejamos donos de um banco.

Imagino, assim, que um dia deixem mesmo de existir Estados, que sucumbirão aos pés dos grandes bancos do mundo quando a hipoteca for executada. Calculo, no entanto, que não nos devamos preocupar muito. Quando o dia chegar, bancos de tão grande dimensão vão tomar conta dos países, e por isso abrir balcões em todos os edifícios de todas cidades, onde certamente haverá emprego para todos nós. Sou até capaz de nos ver já, cada um atrás do seu balcão, ou sentado à sua secretária, dentro de um fato alugado, e sem um único cliente, porque todos lá trabalhamos; as ruas desertas, as avenidas também, sem que nelas passe já carro algum, como o cenário vazio de um filme depois do desastre apocalíptico.

 

Hugo Picado de Almeida

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One thought on “Como começou a crise, e por que vai ela continuar

  1. João Paulo Machado diz:

    Caro Hugo, o teu juizo sobre o actual momento socio/económico e politico traduz uma verdade inscrita num ideal (que já durante o séc. XX, aos poucos têm vindo a ser implementado).
    Este ideal construido e emanado pelo poder económico das grandes instituições e fundações financeiras mundiais baseado no conceito “globalização” o qual, objectiva um GOVERNO MUNDIAL (Platão preconizava o totalitarismo quando afirmava que só as mentes/intelectualidades iluminadas poderiam governar um povo)centralizando o control absoluto dos povos,disciplinando suas vontades e anseios. Os médias não publicam em igual razão proporcional estes factos que são diariamente expostos. O “Clube de Bildberg” (suponho que se escreva assim)existe há muito tempo e não é falado nos médias (existe um livro). Este clube é constituido pelas elites financeiras mundiais multimilionárias.

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