Crise, Televisão

De avessas às candeias

A RTP tem começado por anunciar a sua reportagem no programa Linha da Frente de hoje, às 21h, com a seguinte frase: «Imagine uma empresa onde não se despedem trabalhadores».

Claro que os despedimentos são uma realidade, triste e dura em todas as suas dimensões, mas esta convocatória da televisão pública deve fazer-nos pensar, por querer inscrever-se no plano dos convites à utopia. Dizem-nos «Imagine uma empresa onde não se despedem trabalhadores» como Lennon nos dizia «Imagine all the people / Sharing all the world» ou, melhor ainda, «Imagine there’s no countries». O problema não é que a RTP nos peça para imaginarmos que as pessoas possam não ser despedidas – talvez seja isso, até, o «serviço público». Mas é o facto da RTP nos pedir esse árduo esforço de imaginação no actual contexto que encerra já em si o mal dos nossos dias, a subversão dos referentes, a inversão da realidade, e pior até: para que se possa dizer «Imagine uma empresa onde não se despedem trabalhadores» é preciso que nos tenhamos conformado com essa inabalável certeza de que todas as empresas devem acabar por cortar nos seus funcionários.

Hoje, vivemos enganados pela ideia de que não há soluções. De facto, não haverá, enquanto ninguém quiser tomar as que são necessárias, e enquanto andarmos entretidos com verdadeiros disparates, inebriados na demagogia que, adoptando um teatral ar grave e sacrificial, para que a ilusão resulte perfeitamente, discute se aumentamos a jornada de trabalho em 30 minutos, ou se a semana de trabalho passa a ter 48 horas, ou se cortamos um par de feriados ao ano. Nos países da Europa a sério, trabalha-se menos horas, e ninguém dirá que lá se produz menos. Quem discute tais medidas, porém, tem a sua agenda.

Contentes como as cigarras que cantam, todos embalamos na cantilena feliz de quem exige sacrifícios sem se sacrificar a si, enquanto autarcas, presidentes da assembleia, secretários de Estado, todos eles continuam a trabalhar arduamente, quais formigas no esforço aflito para encher os bolsos antes do longo Inverno da nossa crise.

Atiremos-lhes John Lennon novamente: «Imagine no possessions / I wonder if you can».

Hugo Picado de Almeida

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