Crise, Pensamentos

Meio-Metro

Ando há já bastante tempo para escrever uma carta aos imbecis que gerem o Metro de Lisboa.

Isto porque, já que sabem onde resido (porque quando se pede o passe damos essa informação, assim como quando pedimos a modalidade sub-23, em que não só informamos onde residimos como onde estudamos, para que nenhum utente possa roubar, certamente com dano irreparável, essa casta e justa instituição de utilidade pública que é o Metro de Lisboa), sabem também que para chegar ao meu local de residência, na Ameixoeira, estação da linha amarela, durante grande parte do dia só tenho um metro em cada dois para chegar a casa. Isto porque os restantes param no Campo Grande. Se o fazem por alegar que há poucos passageiros a essa hora, eu até compreendo, mas parece-me que devem também compreender quando, nessa carta que ando para lhes escrever, lhes exigir que me baixem o preço do passe, uma vez que não sou servido da mesma forma que outros utentes.

Porém, isto parecia-lhes ainda pouco – que afectar gente numa única linha não tem graça nenhuma – e querem agora, de acordo com as mais recentes notícias, fechar a rede de metro a partir das 23h, sendo que algumas estações, como as que vão do Campo Grande a Odivelas (Lumiar, Qta. das Conchas, Ameixoeira, Sr. Roubado e Odivelas, esses sítios recônditos onde certamente ninguém se lembra de morar, por distarem da capital o mesmo que o Porto) fecharão mesmo às 21h.

Na Ameixoeira, que nem é propriamente Times Square, vejo sair depois das 21h um grande número de pessoas em cada metro. São, naturalmente, uns desgraçados que trabalham ou estudam até mais tarde e que se verão, assim, impossibilitados de chegar a casa, já que o autocarro não é solução, porque a Carris também já prevê o cancelamento do serviço nocturno. Digo-o apenas para justificar que, de facto, há pessoas, mas nem isso deveria fazer, porque a questão nem sequer deveria ser essa.

Não nos enganemos: não se trata de racionalizar recursos, trata-se de racionalizar receitas.

Se a medida for para a frente, terei então que escrever mesmo a tal carta, mas vou ser obrigado a pedir um desconto maior no passe, obviamente por ser ingénuo e injusto – e talvez também um bocadinho imbecil -, por julgar que, se os serviços são reduzidos, os preços também o deveriam ser. Deve ser por isso que fui para Comunicação (as chamadas Letras): para escapar a uma matemática de razões inversas que nem sempre sou capaz de compreender.

 

Hugo Picado de Almeida

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One thought on “Meio-Metro

  1. Custódio Nunes diz:

    É patético o quão patético esta gente pensa!
    Querem aumentar receitas de todo o lado de uma maneira nada funcional e, sinceramente, já não sei muito bem como pensar sobre estes assuntos, porque às vezes parece que são parvos que nem senso comum têm que estão a dar ordens! Há pessoas a trabalhar até tarde e precisam de ser transportadas, já para não falar no incentivo do uso de viatura própria que isto implica! Que patetice, estas medidas que são um rolo de cordel pra um mar de agulhas!
    (até o que escrevo fica exclamativo!)

    Só falta mesmo mandarem as pessoas parar de ter filhos porque não há emprego pra eles nem dinheiro para os sustentar, e passo a citar o Sr. Silva “vivemos acima das nossas possibilidades”.

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