Cultura, Pensamentos, Pessoas, Televisão

A Estética e os assassinos

A Humanidade é uma multidão assombrada.

Assombrada por muitas coisas, certamente, mas talvez assombrada sobretudo pelo entendimento que tem daquilo que é a estética, e por aquilo que faz dela.

O Público noticiou ontem a sentença de prisão perpétua de Alfredo Astiz, antigo oficial da Marinha argentina, responsável pela tortura e homicídio de milhares de opositores durante a ditadura naquele país. Porém, assim como nos dá conta do monstro que este indivíduo era (e é), assim como os seus pares, igualmente condenados no mesmo julgamento, a notícia inicia-se com o seguinte título: «Prisão perpétua para o “Anjo Loiro da Morte”». E este não é caso único. Anders Breivik, autor dos recentes atentados na Noruega, também ficou conhecido nos media como «o Anjo da Morte» e, se continuarmos a recuar no tempo, encontraremos outros. Josef Mengele, médico nazi, também ficou conhecido para a história como «o Anjo da Morte», responsável que foi por atrozes e violentas experiências em seres-humanos, e pela consequente morte de milhares de pessoas no campo de concentração de Auschwitz.

O que é que se passa, então, connosco? Afirmamos, por um lado, que estes indivíduos são monstros, julgamo-los por crimes contra a humanidade e condenamo-os, mas simultaneamente preservamo-los com epítetos celestes – o facto de eu não acreditar em anjos nem na parafernália de coisas que lhes está adjacente não retira à palavra o seu uso e significado comummente aceite, metafórico ou não. O texto diz-nos que são monstros, mas a estética defende-os – por culpa nossa, que ela sozinha não se concretiza – como figuras de culto, verdadeiras divindades que à conta disso se preservam como símbolos na história, e que por isso nunca podem morrer – que maior pesadelo para as suas vítimas, quando nem o tempo e o esquecimento os podem reabilitar?

Está, portanto, na altura de nos furtarmos aos cognomes bacocos e batidos que não têm razão de ser e que conspurcam a língua e a História. Provavelmente não sabemos o nome de nenhuma das vítimas deste género de criaturas sub-humanas, mas nunca nos esqueceremos de que foram ao olhos do mundo considerados anjos da morte, e só essa permanência poética dos tiranos na memória é já atentado suficiente contra o sofrimento das suas vítimas.

Hugo Picado de Almeida

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