Cinema, Pensamentos

Banda sonora

Hoje vi, no doclisboa, um filme de Harun Farocki intitulado Respite.

Respite é um filme completamente mudo, e na visão rara que é o Grande Auditório da Culturgest quase vazio, mergulhado no escuro e no silêncio, assomou-me à mente, como se para preencher o vazio sonoro, um breve pensamento que verá a luz do dia no fim deste texto.

Respite é um filme sobre um “Campo de Trânsito” holandês, Westerbork, para judeus em fuga da Alemanha nazi. O filme de Farocki é construído com fragmentos de fita de um filme que nunca foi concluído, filmado por Rudolph Breslauer por encomenda do comandante do campo, um oficial das SS, em 1944.

Ao que se sabe, e tanto quanto as imagens mostram – ainda que Farocki lance, a dado momento, sementes para a dúvida sobre a sua não manipulação -, Westerbork era um campo bastante diferente de qualquer outro. O campo era quase inteiramente gerido pelos próprios prisioneiros, tinham um teatro, hospital, não havia violência – a não ser a escravidão do trabalho -, e enquanto os prisioneiros trabalhassem poderiam permanecer no campo. Nada disto atenua o facto de ser um campo de concentração nazi, nem a atrocidade que constitui a perseguição e a prisão de indivíduos posteriormente forçados a trabalhar, apartados de si próprios e dos seus, devido às suas crenças ou raça. Porém, relato-o porque foi o que serviu de base ao meu pensamento, como se verá adiante.

Westerbork era um “Campo de Trânsito” porque, ainda que ninguém fosse nele torturado ou assassinado, eram muitos os comboios que partiam com gente em vagões de gado em direcção a Bergen-Belsen, Theresienstadt ou Auschwitz, onde os crimes mais hediondos eram consumados. Westerbork poderia ser a dor suportável na guerra, mas o horror do campo, como diz Farocki, consistia na consciência de que a permanência nele era apenas temporária.

No escuro silencioso do Grande Auditório da Culturgest, assistindo ao filme com o queixo pousado sobre a mão esquerda, podia ouvir claramente o tiquetaquear do ponteiro dos segundos do meu relógio de pulso, como se relembrasse às vítimas já sem esperança no ecrã que o seu tempo – ali como na vida – era limitado, e que as suas vidas se esgotavam, caminhando a passos largos para o vazio negro da inexistência, como o próprio filme, aliás, a cada segundo mais próximo do seu término. Pareceu-me, naquele momento, que o tic-tac dos ponteiros era a banda sonora mais apropriada para os horrores do Holocausto, essa máquina de matar que muitos dizem que tinha a precisão dos relógios.

Hugo Picado de Almeida

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