Cultura, Livros, Pensamentos, Pessoas, Política

Tudo o que sobe, acaba por descer (ou por ser atirado)

No seu livro America, Jean Baudrillard encena, a dada altura, a seguinte pergunta: «What are you doing after de orgy?», e depois pergunta realmente: «What do you do when everything is available – sex, flowers, stereotypes of life and death?»

Baudrillard certamente adoraria que respondêssemos que, a uma sociedade assim, não resta senão a extinção, a auto-destruição, e se formos honestos devemos admitir que temos sido exímios no seguir desse caminho, talvez excessivamente zelosos e irracionalmente perfeccionistas, até. À nossa sociedade da abundância – que, como é sabido, abunda mais para uns do que para outros – pareceu restar apenas esta saída: o retrocesso e a aniquilação do estado de coisas, para fazer ressurgir a sede de novas conquistas, ou melhor, reconquistas, e o problema é precisamente esse prefixo.

Quando submetemos os indivíduos e os seus direitos, desde logo o seu direito a uma vida digna, aos caprichos das mais fantasiosas narrativas económicas – porque é isso que a economia virtual é, uma série de fábulas onde abundam javalis de fato completo que fossam o chão, colhendo o que outros plantaram -, não podemos esperar que as vítimas deste novo e mais temível terrorismo, que se disfarça por detrás de entidades abstractas como os “mercados”, uma espécie de Papão para adultos e que é destemido ao ponto de não se esconder senão no discurso que se diria ébrio dos seus perpetradores, se mantenham mudas e caladas. Quando perdemos a vergonha que nos impedia de atentar contra os direitos mais inalienáveis e, talvez pior, quando perdemos a vergonha de ser apanhados em falta, com a nossa palavra ou com as nossas acções, talvez a auto-destruição seja mesmo o caminho mais sensato, e o menos doloroso, a percorrer.

Já neste espaço citei Orwell, no seu O Triunfo dos Porcos. Há, porém, algo que convém realçar. Apesar da metáfora ir nesse mesmo sentido, o que acontece realmente neste livro, e que nos deve admirar, não é tanto que os porcos se tenham deixado corromper e tornado iguais aos homens; é, isso sim, que os homens se tenham tornado iguais aos porcos. Tanto quanto se julga saber, os porcos não têm palavra, e muito menos pudor.

Hugo Picado de Almeida

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