Ficções, Pensamentos, Pessoas

O homem quieto

Hoje vi, numas escadas rolantes paradas, um homem igualmente parado a meio delas – não era claro quem esperava por quem.

O homem olhava em redor, alheado, como geralmente olham as personagens dos romances, mas sem que se revestisse de particular interesse literário. Pus-me, então, a pensar naquilo que lhe poderia ir na cabeça. Talvez não fosse muita coisa, razão pela qual se mantinha ali quieto, ou talvez fossem demasiadas coisas, o que o assoberbava e remetia para a imobilidade própria de quem não sabe o que fazer.

O mais certo é que, ali parado, o homem pensasse no estado do país, ou “no estado a que chegámos”, como já dizia o Salgueiro Maia, e que se solidarizasse com o marasmo da economia ou com o estado dos transportes públicos, tornando-se ele próprio a analogia perfeita.

Preferi pensar que era disso que se trava, porque a outra opção seria lembrar-me, oportunamente, aliás, de um pequeno conto de Manuel Jorge Marmelo (aqui) sobre um rapaz, o Jeremias, que não parava de correr por todo o Mundo, nem mesmo quando – e talvez sobretudo quando – a Morte, de pé à espera dele, lhe fazia sinal para que parasse, para restaurar «a ordem natural das coisas». Temi, então, que aquele senhor de boné fosse a própria Morte, que ali estivesse à espera, camuflada, para apanhar o endiabrado rapaz desavisado, e senti-me como se deve sentir o indivíduo a quem uma bala assobia ao passar rente ao corpo.

Em todo o caso, segui o meu caminho, certo de não me chamar Jeremias.

Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “O homem quieto

  1. Custódio Nunes diz:

    O ínicio parece-me digno d’O Cortejo. Ainda não sabendo o que me espera, é algo assim como isto que espero. Muito bonita análise Hugo, a realidade dá-nos ferramentas que nem todos aproveitam.

    • Bem poderia ser, Custódio, é verdade. Quem sabe como poderá começar um próximo livro.
      Tens razão; há muito que nos passa diante dos olhos todos os dias e que descartamos sem pensar naquilo que se pode tornar: um texto, um quadro, uma fotografia, o que se quiser…
      Foi uma feliz conjugação, o assistir a este episódio e a ideia de o aproveitar.
      Um abraço.

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