Crise, Livros, Pensamentos

Sobreviver a Vítor Gaspar

Terminei há um par de dias a leitura do Catch-22, de Joseph Heller, e um pensamento facilitado por um par de neurónios especialmente activos de manhã pôs-me isto diante dos olhos: Se Yossarian, artilheiro num B-25 americano, sobrevive ao cada vez maior número de missões de combate para as quais é escalado, se sobrevive aos envenenamentos da messe – por vezes promovidos por ele próprio para que se cancelem as missões -, se resiste às constantes baixas ao hospital – com imaginárias dores de fígado – onde mataram o «paciente de branco», e se sobrevive uma e outra vez, com grande teimosia, às tentativas que a prostituta de Nately faz para o assassinar com uma faca de trinchar, além do permanente desafio à sanidade que se traduz na convivência com os demais elementos da esquadrilha, parece-me não haver razão para que não possamos, todos nós, sobreviver à actual crise que se nos apresenta.

Pensava eu nisto, porém, quando me lembrei de que Yossarian nunca teve que assistir a uma conferência de imprensa do Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e portanto sinto-me no direito de apor a estas palavras uma pequena ressalva: talvez se Yossarian fosse obrigado a ver alguma destas conferências, talvez, repito, não se tivesse safado e conseguido fugir para a Suécia, onde o próprio diz que «Deve ser estupendo viver (…). As garotas são tão gentis… E, de resto, é um povo muito avançado.»

Hugo Picado de Almeida

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