Crise, Livros, Pessoas

Garrett, hoje

Em tempos, Almeida Garrett escreveu: «E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?»

Não tenho resposta para tranquilizar ou alarmar o espírito de Garrett, mas numa coisa certamente concordaríamos: sejam quantos forem, cada um que o seja é já um em demasia. Enriquecer não tem problema, desde que não seja feito pela exploração da sociedade e/ou dos que a constituem. Além disso, parece-me que quem enriquece numa sociedade, porque enriquece sempre através dela, deveria estar moralmente obrigado a retribuir-lhe, em parte, algo que é até bastante comum nos EUA.

Mas cá, o sentimento geral dos ricos é de um egoísmo exacerbado, resumidos que estamos a um par de Belmiros, que olham para a sociedade que os fez enriquecer e põem o dinheiro fora do país, que fogem aos impostos (e que pagam já tão poucos), e que depois, com todo o descaramento, e como bem diz o meu avô, ainda se mostram orgulhosos, dizendo que dão emprego a milhares de pessoas, mas esquecendo-se de que colocam licenciados em caixas de supermercado com salários miseráveis e sem qualquer contrato, explorando de mais uma forma a sociedade que os alimenta. Lembro-me, até, de declarações de Belmiro de Azevedo ao Jornal de Negócios em Janeiro de 2010: «Belmiro admite que os “salários são baixos” mas é “o pessoal do meio que ganha de mais. Têm de ser aumentados o último piso e o rés-do-chão”». Esquecia-se, no momento destas declarações – um momento de loucura, certamente, como aquela insanidade temporária que tantos réus defende no tribunal – daquilo que se passa no seu próprio grupo e, já agora, daquilo que se passa na sua própria carteira, já que é ele quem está sentado no tal “último piso”, explorando os do “rés-do-chão”.

Mais uma vez, parece que Garrett tinha razão: Falar Verdade a Mentir.

Hugo Picado de Almeida

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