História, Religião

O Holocausto do Vaticano

Segundo o Público, o Arcebispo de Moscovo, o italiano Paolo Pezzi, proferiu hoje um discurso em Fátima sobre “os poderes totalitários que odeiam a religiosidade”.

Durante 20 minutos, o Arcebispo terá falado, entre dogmas poéticos destinados a bem ouvir mas a pouco perceber, do tema do “silêncio de Deus”, com que muitas vezes se critica a Igreja por não ter tomado uma posição durante o Holocausto. O Arcebispo terá dito que “mesmo o silêncio de Deus é uma palavra”, e que ainda que esteja em silêncio, isso não significa que esqueça o Homem.

É um argumento fraco e, pior, seria afirmar deus (no qual não acredito, se ainda dúvidas houvesse) como uma espécie de homem fraco, cobarde, que perante a injustiça fica mudo e calado. Eu também não me esqueço se vir alguém ser assaltado, mas se não fizer nada, dá no mesmo. Bem posso ir dizer à vítima “Não se preocupe que eu não me esqueci”, e se me escapar a uma lambada bem aplicada na cara já me posso considerar um sortudo. Ao que parece, deus pode fazer isto sem merecer especial condenação, mas suponho que isso tenha algo a ver com o seguro de saúde inerente à profissão que desempenha.

O problema é que nada disto é realmente verdade, e daqui em diante não há motivos para gracejos. Durante o Holocausto (o nazi), deus nada podia dizer, porque estava demasiado ocupado com o seu próprio Holocausto. É legítimo que quem me lê se pergunte, neste ponto, “de que raio está este indivíduo a falar?”, porque a História, e quem dela se ocupa no nosso falso Estado laico, tem sucedido brilhantemente em ocultar qualquer referência ao tema. Felizmente, aqui há já um par de anos, o meu amigo Bruno Cardoso alertou-me para a existência daquilo que ficou (pouco) conhecido como “O Holocausto do Vaticano” (título do livro de Avro Manhattan, aqui disponível online, documentado até com fotografias dos massacres), que decorreu precisamente durante o início da década de 40. Podem ler aqui bastante sobre o tema, mas para quem preferir a versão curta, aqui fica:

Entre 1941 e 1943, na Croácia, o Governo de Ante Pavelic instaurou um regime de perseguições e extermínio aos ortodoxos – na sua maioria sérvios -, com o total apoio da Igreja, sendo que bispos, padres, monges e mesmo freiras integravam as listas do SABOR (partido totalitarista croata) e as fileiras da Ustashi, seu braço armado organizado como uma força terrorista. Havia, inclusive, padres a chefiar campos de concentração, onde as pessoas eram assassinadas à martelada, envenenadas ou até cremadas vivas. entre Abril e Junho de 1941 foram mortas cerca de 120 mil pessoas.  A par disso, a Ustashi fazia frequentes incursões a vilas e cidades em busca de ortodoxos, imediatamente mortos a sangue frio com violência brutal. O Holocausto do Vaticano foi, proporcionalmente à duração e território abrangido, o pior massacre do Ocidente, suplantando o Holocausto de Hitler. As estimativas apontam para um milhão de mortos.

Ora, em 1998, João Paulo II beatificou o Arcebispo de Zagreb, Stepinac, que integrou o SABOR e foi directamente responsável, junto do chefe-de-estado croata, pelo programa de limpeza étnica dos sérvios ortodoxos. Em 2009, Bento XVI deu um passo importante no processo de beatificação do Papa Pio XII, Papa que assistiu em absoluto silêncio a ambos os Holocaustos simultâneos: o de Hitler e o da sua própria Igreja.

Não se compreende, portanto, que o Arcebiso de Moscovo venha agora dizer que os poderes totalitários sempre odiaram a religiosidade. Ao que parece, pelo menos Pavelic tinha-a na maior consideração, e Hitler também não foi propriamente um seu inimigo.

Hugo Picado de Almeida

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One thought on “O Holocausto do Vaticano

  1. Custódio Nunes diz:

    Gosto muito do sarcasmo, e quase me imaginei a dizer “não se preocupe se lhe levaram os 300€ que tinha na carteira, vou me lembrar de si até daqui a uma semana!” Hahahah 😉 muito bem esgalhado

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