Crise, Pensamentos, Política

Imprivatizável

As notícias mais recentes sobre o Orçamento de Estado para 2012 dão conta do avanço das privatizações da TAP e da ANA, e também dos CTT e de um canal da RTP. Não sei ao certo se é boa ou má política – ainda que fique mais de pé atrás no caso da ANA, e sobretudo da RTP, embora deva compreendê-lo -, e por isso deixo a questão para quem sabe.

Ainda assim, pus-me a pensar, coisa que geralmente aprecio e que tem a vantagem de me permitir tirar tanto boas como más conclusões e, assim, levar a qualquer lado. Além da diminuição da dívida pública, a razão óbvia para privatizar alguma coisa é de que ela dá prejuízo ao Estado. Lembrei-me, então, de que talvez nada dê tanto prejuízo ao Estado como o próprio Estado. Talvez valesse a pena – se a lógica e a matemática ainda valerem de alguma coisa elas próprias – privatizá-lo. Eram muitos milhões que se poupavam por mês, e aqueles que advogam a extinção do Estado Social podem até estar perto de o propor, para o converter numa espécie de clube de futebol em que os ministros seriam as estrelas capazes de resolver o jogo com uma perna às costas – aqui se vê como esta visão é exagerada e cai no ridículo -, mas esqueceriam o financiamento da Escola Pública, o Serviço Nacional de Saúde, a garantia de informação independente, etc.

Percebemos, então, o risco da privatização cega ao serviço de uma ditadura da aritmética, e tomamos consciência, não sem um certo pesar, de que, logo por azar, o Estado é a única coisa que não podemos privatizar.

Hugo Picado de Almeida

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4 thoughts on “Imprivatizável

  1. Bruno Cardoso diz:

    Uma básica desinterpretação da esquematologia deste tópico é a concepção de que o acto de privatizar trará um funcionamento límpido e eficaz à instituição em causa. Tal não é directamente subsequente, pois as boas gestões não se cingem ao sector privado: aliás, é a dívida privada que hoje se situa a cerca de 220% do PIB, e não a pública. Ora, a retórica propagandeada é que assim o faz crer. Por razões utilitaristas, obviamente: é mais fácil cortar no sector público que organizar, por exemplo, a banca, e começar a vigiá-la de perto, através de um rigor mais socialista. Portugal tem vindo a entrar em acção nesta austeridade comprometida do mesmo modo que durante anos a fio se meteu nela: fazendo as coisas atabalhoadamente e sem compromisso com o seu próprio futuro enquanto Estado. A ausência de esforço intelectual (na tentativa de tornar o país um pouco mais produtivo, mais dinâmico, mais apto a gerar bens transaccionáveis) demonstra o aperto governativo em que estamos, qual aluno em apuros que esgotou o tempo para pensar e aprender, apenas lhe restando algumas horas para decorar algumas directrizes apressadas e puramente contabilísticas, que de inteligentes pouco ou nada têm, leccionadas pelos seus não mais intelectualmente inteligentes professores da UE, do BCE e do FMI. Assim, pouco ou nada restará ao Estado para continuar a sê-lo. E essa sim, é a questão mais preocupante. A privatização do Estado de que falas é simplesmente o hipotecar, gradualmente, das suas potencialidades enquanto organismo primordial de acção social e de justiça. O problema do Estado tem sido a sua má (e correcta, diga-se) fama. Um mau Estado levou a este Estado de coisas, mas o Estado também é feito de quem o escolhe, supervisiona e responsabiliza: o eleitorado.

    • Hugo Picado de Almeida diz:

      Concordo plenamente, amigo Bruno. As privatizações parecem-me ser uma forma fácil de diminuir a dívida pela realização rápida de vendas, mas que, no mesmo acto, além de solucionar um problema imediato, poderá criar outros a longo prazo, quem sabe igualmente ou até mais preocupantes (o caso mais notório neste ponto seria o da EPAL, por exemplo).
      Quando falava da privatização do Estado, fazia-o apenas como devaneio e cotovelada na situação do país – qual “jogador da bola”. O que me parece, e que vai ao encontro do que muito bem dizes, é que a privatização do Estado, de alguma forma, já está em curso, quando se submete à banca e, pior, aos interesses de alguns cidadãos – como “aqueles mais ricos que não se podem irritar porque senão levam o dinheiro para fora do país” (como se não levassem já ou como se fossem alguns beneméritos), esses que até se escusam ao pagamento de impostos. Esta privatização velada, mas que acaba por deixar os pés de fora, vai traduzindo-se – ainda que numa tradução pouco clara, porque não convém que a maioria das pessoas a consiga ler – nos ataques ao SNS, Escolas, Cultura, etc.
      Ainda assim, a tua ideia final faz todo o sentido. Cabe-nos a todos deixar de pensar como vítimas e sim como responsáveis.

      • Bruno Cardoso diz:

        Sim, eu entendi o teu ponto desde início, bem como o modo como te dirigiste a ele, e bem. Ressalvei sim algo que penso ser um vício facilitista de raciocínio que pode assolar algumas mentes incautas (assola e muitas…). Continua perspicaz e analítico, é um prazer acompanhar-te aqui.

        • Hugo Picado de Almeida diz:

          Sim, eu sei que sim. Tu, de todos, entendes bem os meus modos e sentidos. E fizeste muitíssimo bem em oferecer a este espaço, enriquecendo-o, essa tua reflexão. Espero que continues a comentar sempre. São excelentes, as tuas contribuições.

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