Livros, Pessoas, Política

Jardim, o abutre de Kafka

Franz Kafka escreveu, certo dia, um curtíssimo texto sobre um abutre e um indivíduo a quem este bicava os sapatos. E bicava já há tanto tempo que passara os sapatos e lhe ia dilacerando os dedos dos pés. O homem tentara revoltar-se, mas o abutre virara-se-lhe à cara, e ele preferia sacrificar os pés, que se encontravam já «quase despedaçados». Ao fim de um bocado, há um homem que por ali passa e se propõe a dar um tiro no abutre, prometendo que vai a casa buscar a espingarda. O abutre, porém, ouve as combinações, e, feito kamikaze, sobe ao céu para depois acometer contra a boca da sua vítima, num golpe final.

Ao saber ontem da reeleição de Alberto João Jardim na Madeira, ocorreu-me que Jardim pode muito bem ser o abutre do conto de Kafka. Vai bicando os pés – e tudo o mais que consegue, como a paciência e o juízo -, a toda a gente, não respeitando ninguém. Há, certamente, de chegar um outro que se proponha a matá-lo (politicamente, claro, sorte que o abutre de Kafka não teria), quem sabe já nas próximas eleições, depois da Madeira se ver a braços com as suas medidas de austeridade.

O meu receio é, portanto, que Jardim reaja como o abutre ao ver-se encurralado, por já se ter provado capaz de tanto sem estar ameaçado. O mais certo, digo eu, é que todos os abutres reajam de igual modo, e convém que o Governo da República esteja preparado antes de Jardim esvoaçar para dar a estocada final.

Hugo Picado de Almeida

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