Arte, Cinema, Pensamentos

O duplo

Ontem vi um dos filmes de animação mais maravilhosos que já tive oportunidade de ver. Não pela tecnologia utilizada, mas sim pela estética e pelos pormenores, pelos detalhes do argumento. Há argumentos assim, que valem pela inteligência e brilhantismo escondidos nos detalhes. Contadores de histórias há muitos – ainda que bons -, indivíduos capazes de escrever para além disso, não tantos. Ora, o argumentista de Le Roi et l’Oiseau está certamente entre estes segundos.

Interessa-me, porém, o facto da ditadura no pequeno país acastelado do filme ser, essencialmente, uma ditadura estética. Claro que há trabalhos forçados, prisões (d’État, d’Été, d’Hiver…), uma polícia/guarda real e até mesmo um déspota de bigode. Por ditadura estética falo do excesso de símbolos – que não representam senão o rei, num Estado que não tem insígnias que não o próprio rosto do monarca -, mas também uma quase total subordinação ao visual. Não é por acaso que o rei é estrábico, e esse facto, aparentemente simples e inócuo, assume na história grandes proporções. A força do visual, da imagem imaculada do monarca é tal que todas as suas representações o imitam em tudo menos no olhar, que o têm direito, perfeito como se impõe pelo culto do líder.

Acontece, então, que se dá uma reviravolta no estatuto de verdade de representado e representação, e a realidade dá lugar ao hiper-real: a representação ganha tal força que sai do quadro e o duplo subjuga o próprio monarca, fundando uma nova realidade que está, por isso, mais longe de o ser. Mas, como em qualquer dispositivo hiper-real bem construído, é o duplo que se torna presente e real, é ele que funda a narrativa daí em diante. A cópia ultrapassa o seu original e toma o seu lugar.

O rei de Le Roi et L’Oiseau é, assim, vítima da própria ficção que constrói para si, na figura do seu duplo aperfeiçoado que o assassina. Lembrei-me, porém, que era inevitável que tal acontecesse, já que só assim a tirania do visual pode ser vingada, restabelecendo-se a ordem, mas agora a um novo nível, um nível mais distante do real que a ele já não se adequava.

É esse o poder da hiper-realidade, e é assim no nosso próprio mundo.

Hugo Picado de Almeida.

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One thought on “O duplo

  1. Marta diz:

    Adorei, Hugo! Fico muito contente que tenhas gostado tanto do filme ao ponto de produzir este texto. 🙂 Como te dizia, para mim as duas ditaduras têm a mesma força, sobretudo no contexto do pós-guerra, e com as claras alusões a Hitler e a Estaline. Achei super interessante essa ideia do olhar, que remete para uma prisão visual e estética. Não tinha pensado nisso, mas a ditadura é um olhar distorcido que obriga uma multidão a segui-lo. Via realmente uma arquitectura-prisão, onde parecem estar todo o mundo e todo o tempo concentrados (uma espécie de Babel, carregada de pilares e caiada de branco e cinzento, assustadoramente silenciosa). Uma prisão de ordem e aparente harmonia, que os insultos do pássaro, a música do acordeão e o robô, manipulado pelo pássaro vêm destruir. A questão do duplo também é interessante pela associação ao fantástico, como acontece no William Wilson, do Poe ou na Confissão de Lúcio do Sá-Carneiro.

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