Cultura, Guerra, História, Pensamentos, Política, Terrorismo

11 de Setembro, um Potlatch gigantesco

Quando Baudrillard se referiu ao 11 de Setembro como um “potlatch gigantesco”, a dor da perda e a (hiper-)sensibilidade ao evento mais traumático e surpreendente do século XXI (seguido pela televisão em todo o Mundo e em directo, como talvez nunca outro acontecimento tenha sido – facto decisivo para a dimensão do evento), impediram a compreensão das palavras de Baudrillard, e levaram a lê-lo como provocador.

Será agora, com 10 anos de distância do atentado, altura de regressarmos ao assunto, e de, gozando da vantagem de conhecer como se desenrolaram os acontecimentos no pós 11 de Setembro, tentar compreender criticamente toda a sua dimensão.

Comecemos, então, por relembrar de forma sumária as características essenciais do potlatch (espécie de festival onde se renunciava a determinados bens materiais, em que se distribuía ou destruía a riqueza própria, como demonstração de poder) nas tribos indígenas da América do Norte, como relatado por Marcel Mauss[1]:

– dádiva de bens (é impossível não aceitar uma oferta);

– bind: é obrigatório retribuir de forma que supere a dádiva recebida;

– quanto maior a oferta de bens ou a sua destruição, mais rico e poderoso o indivíduo.

DÁDIVA. O 11 de Setembro foi uma dádiva impossível de rejeitar: acção de força e surpresa.

BIND. Não retribuir era um sinal de fraqueza, era sinal de que não se era suficientemente poderoso. Como era possível não retribuir, não agir perante um atentado tão violento? O discurso de Bush, no próprio dia 11 de Setembro, é prova disso.

DESTRUIÇÃO. O potlatch na sua dimensão destruidora[2] interessa-nos grandemente. Não é possível não analisar o 11 de Setembro como destruição. No sentido do potlatch, quem mais destrói o que é seu, mais poderoso se torna, pois a sua “fortuna” admite/resiste a um maior grau de destruição. Se pensarmos quer o 11 de Setembro quer outros atentados-suicidas à luz desta realidade, temos que concordar com a definição de Baudrillard. Que maior destruição própria pode haver que a destruição da própria vida? Mais, a destruição da própria vida num atentado-bombista vai além do potlatch original: a destruição do bem próprio é acompanhada de uma destruição brutal e traumática do alheio – O meu poder é tal que, a destruição do meu, implica a destruição do outro.

Também como no 11 de Setembro, no potlatch original não havia maneira de não aceitar a dádiva (ou a destruição). A questão era, então, se não podemos evitá-lo, como responder-lhe, como retribuir? (A oferta exige retribuição, e é nesse constante superar de ofertas por meio de retribuições progressivamente mais fortes que o potlatch se concretiza, num sistema que se auto-alimenta).

Mas como retribuir com superação do recebido, no caso do 11 de Setembro? Como retribuir face a algo tão grotesco, poderoso e surpreendente? Não parece possível e, pelo menos até ao momento, não foi possível – em parte porque o terrorismo não tem rosto, mas também porque os agentes do 11 de Setembro deixaram de existir no momento da dádiva. E é daí – da impossibilidade de fazer alguém pagar – que resulta a brutalidade do 11 de Setembro para o Mundo Ocidental: não podendo retribuir, o Ocidente vê-se humilhado, remetido para a posição do chefe índio que não foi capaz de estar à altura de uma oferenda. O potlatch, como o 11 de Setembro, é uma guerra de forças, e em 2001, o Ocidente começou a perder.

A guerra contra o Iraque é prova disso. Não podendo retribuir, o Ocidente construiu uma narrativa que visava direccionar as lentes dos media para algo em que o Ocidente se podia mostrar superior, onde poderia mostrar o seu poder, a sua virilidade, mesmo que pouco ou nada essa demanda tivesse a ver com o terrorismo.

A Guerra como narrativa

O 11 de Setembro teve a dimensão que teve, em grande parte, por causa dos media. A sua força e brutalidade veio muito da repetição, dos vários ângulos, dos milhares de fotografias e testemunhos difundidos até ao ponto de não restar mais ninguém para ouvir, das simulações por computador, das obras ficcionais veiculadas pelos media.

Novamente: o 11 de Setembro foi além do potlatch original, porque foi um potlatch global − ele extravasou a aldeia, galgou as margens do lago de onde só a tribo bebia; a ele assistiram pessoas que nem sequer sabiam da existência da tribo; de qualquer uma delas, aliás.

A nossa era, dos ecrãs e do directo (o directo já não é só a emissão a partir do local e do tempo do acontecimento, mas também a recepção no tempo e no local onde estou, esteja onde estiver) potenciou a difusão e o trauma do 11 de Setembro e, como eco, amplificou as consequências do atentado, o seu poder e responsabilidade: os media levaram o potlatch ao mundo e, através deles, o mundo exigiu a retribuição.

Foi então que, sem poder responder de forma superior ou, sequer, igual, nos mesmos termos, o mundo ocidental pegou num caderno em branco e iniciou a sua sequela contra o Iraque. Porquê? Porque a humilhação seria insuportável, tanto mais insuportável quanto o número de repetições televisivas e imagens da dor ocidental, em multi-câmaras e câmara lenta.

Mas os media não ficaram por aí. Foram veículo da humilhação, foram voz da exigência de retribuição, e foram também transmissores da “solução”. Assim se justifica o acompanhamento permanente à guerra do Iraque, do primeiro ao último minuto: assim se conseguiu imergir o público no dia-a-dia da guerra, o que lhe dava a sensação de que algo estava realmente a ser feito. A Guerra contra o Iraque não foi tanto uma retribuição à dádiva do 11 de Setembro, mas sobretudo uma retribuição às exigências do público ocidental.

É daqui que advém a irresolução do problema “terrorismo”, o seu estado pendente e da continuação dos atentados. Não é possível responder-lhe. E nós, sabendo disso, fazemos o que é possível: responder a quem exige uma resposta; aparentar que, de alguma forma, respondemos, sem que de facto estejamos a responder ao terrorismo.

Curiosamente, é no seio desta narrativa mal direccionada e altamente ensaiada, definida, que algo lhe escapa, algo que, precisamente, resultou nos únicos actos humilhantes e verdadeiramente retributivos aos atentados. Esses actos foram não outros que as fotografias que alguns militares norte-americanos tiraram com prisioneiros feitos ao exército iraquiano. Isso reflecte a espontaneidade dos soldados, o que escapa ao guião rígido da narrativa, o gozo praticado contra os prisioneiros: a humilhação – embora à margem da narrativa, são eles que exprimem o verdadeiro propósito da guerra.

Porquê, então, a contestação? Porquê a condenação destes actos, a crítica internacional, se o acto incarna o desejo de retribuição dos ocidentais, se de facto traduz o domínio do Ocidente, se de facto foi a forma mais próxima de uma retribuição, reduzindo os “inimigos” por meio de signos ridicularizantes, golpes baixos contra a sua cultura, atacando o que de mais fundamental tinham?[3] A razão para tal condenação é que eles falharam o alvo, tal como a própria guerra. Porquê a crítica feroz aos cartoons contra Osama Bin Laden, porquê a crítica às políticas de Sarkozy contra o uso de símbolos religiosos como a Burkha em França? Novamente: porque o alvo está deslocado, porque os dardos foram erradamente apontados. E de onde vem este erro? Do facto de levarmos demasiadamente a sério, não a ameaça do inimigo, mas as razões atrás das quais este se escuda. A Al-Qaeda diz combater os inimigos do Islão, e o Ocidente acreditou. Acreditou de tal forma que respondeu ao chamamento e se converteu novamente em cruzado, que era precisamente o que a Al-Qaeda desejava, para assim se poder afirmar a travar uma guerra santa, para assim tornar corpóreo o inimigo ocidental que existia apenas na sua mente, na sua ideologia radical.

_____________

[1] MAUSS, Marcel, (2008) Ensaio sobre a dádiva, Edições 70.

[2] Esta é, aliás, uma das suas principais características, já que esteve na base da proibição que tornou o potlatch ilegal nos EUA e Canadá (séc.XIX).

[3] O 11 de Setembro foi tão brutal para o Ocidente porque atacou o seu símbolo de poder, o símbolo da sua hegemonia, o expoente máximo do seu materialismo, a imagem do seu poder económico sobre o Mundo. Por sua vez, as fotografias aos prisioneiros iraquianos atacaram o que de mais importante eles tinham: a sua cultura, a sua virilidade numa sociedade altamente machista.

Hugo Picado de Almeida

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