Cultura, Livros, Pensamentos

Estes franceses são loucos!

Bastaria mudar a palavra «romanos» para «franceses» e facilmente este título poderia ser de um livro das aventuras de Astérix, o gaulês. Mas a aventura aqui é outra, e tem um par de investigadores, também eles gauleses, como protagonistas.

Aqui há uns meses, Antoine Buéno chocou meio mundo – a outra metade não o ouviu – ao dizer que os Estrunfes eram a encenação de um regime ditatorial. O facto de ter reconhecido elementos ligados tanto ao regime nazi como ao estalinismo numa mesma comunidade de bonecos animados parece não importar ao investigador. Parece que no país dos Estrunfes a iniciativa privada não é estimulada, as refeições são feitas em conjunto e é proibido sair do país – assuntos que naturalmente preocupam os desenhos animados. Além disso, o investigador conseguiu ver, por entre os estrunfes – criaturas que parecem clones umas das outras, à excepção dos adereços -, Trotsky e Estaline. Trotsky é o estrunfe de óculos que, bem vistas as coisas, também poderia ser eu, que também uso óculos; quanto a Estaline, ele é, obviamente, o estrunfe que veste de vermelho e tem barba branca. Protestará o leitor: mas Estaline não tinha barba branca! Pois não, mas vestia de vermelho. Ah, não… também não vestia… Apesar de toda a estética rubra da URSS, Estaline não vestia de vermelho… Pois era… Mas pronto, Estaline também era o chefe da sua aldeia e acabou-se aqui a discussão. O Papá Estrunfe é Estaline e não se fala mais nisso! Mas como isto ainda não satisfazia o investigador – que um só regime ditatorial na bonecada é coisa para meninos -, também o nazismo está presente nos estrunfes, pela presença de um judeu marginalizado, aparentemente o Gargamel/Gasganete, mas nem vale a pena entrarmos por aí.

O que me interessa é que, ao que parece, a moda pegou, e um outro investigador francês, Michel Serres, vem agora dizer que também Astérix é um elogio do fascismo e do nazismo. Porquê? Basicamente, são três os argumentos: (1) porque tudo se resolve à pancada, (2) porque a poção mágica é um elogio da droga e (3) porque o constante calar do bardo representa um desprezo pela cultura.

É esse o risco das histórias, desenhadas e/ou escritas: cada um vê nelas aquilo que quer, cada um retira delas aquilo que deseja, e nada do que o seu autor venha a dizer poderá impedir os leitores de decidirem, na auto-determinação da leitura em solidão, qual é o significado que da obra retiram para si. Um investigador português, ao ver no Astérix um antro de pancada, drogas e desprezo pela cultura aceite talvez o situasse na Cova da Moura ou no Bairro do Lagarteiro.

Hugo Picado de Almeida.

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2 thoughts on “Estes franceses são loucos!

  1. Custódio Nunes diz:

    Desde que um grupo religioso qualquer andou a dizer que o castelo do Rei Tritão, na pequena sereia, tinha uma forma bastante fálica já nem tenho força pra dizer mais nada.

    Cada um com os seu olhos, ansiosos por pecado ou não.

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