Crise, Guerra, História, Livros, Política

A guerra da História

«Actualmente, há cinquenta ou sessenta países envolvidos nesta guerra. Não acredito que todos mereçam que se morra por eles!»

A frase é dita por uma personagem no Catch-22, romance mirabolante de Joseph Heller sobre a própria mirabolância das guerras. Não deixa, pois, de ser de notar este momento de clarividência proferido por um velho num bordel, que responde com uma lógica implacável ao argumentar fervoroso de um americano ferrenho. Eu próprio acredito que nem todos os países, nem todas as coisas, mereçam que se morra por elas, mas acredito também que os países não merecem morrer pelos Homens que compõem uns e outros.

É claro que os países não são como os Homens – por serem os primeiros um grande conjunto dos segundos -, e que é mais penoso para um Homem perder uma guerra do que perdê-la um país, porque todos os países só sofrem através dos Homens que os perfazem. Ser um país não parece, portanto, ser mau, sobretudo se a memória for curta. É que os países, por não serem Homens, não têm memória própria, e se os Homens que os compõem também se furtarem à responsabilidade de a ter, toda a História se perde, e com a perda da História, o futuro está em risco.

A Alemanha converteu-se novamente na cabeça da Europa, e quando os seus representantes esquecem o passado – porque sugerir bandeiras a meia haste é esquecer as estrelas de David cosidas na lapela de seis milhões de judeus -, esquecem necessariamente tudo o que a Europa e os EUA fizeram pela Alemanha, não só nos dois períodos pós-guerra (de guerras iniciadas pela Alemanha) mas também durante a reunificação alemã em 1990.

É de salientar – e de recordar à Alemanha – que o valor da dívida alemã, à época, era muito superior às actuais dívidas de Portugal, Grécia e Irlanda. Nas palavras do historiador alemão Albrecht Ritschl, a Alemanha é mesmo o país que acumulou maior dívida durante todo o século XX. E quando se levantam vozes na Europa que dizem que uns países não devem pagar pelos erros dos outros, devemos relembrar que os países ocupados pela Alemanha nas duas grandes guerras foram também os países que participaram da recuperação económica alemã – a Grécia incluída -, e a Alemanha nunca os compensou, tendo até deixado por pagar grande parte dos empréstimos que lhe tinham sido feitos.

Enquanto a memória for curta, a Europa só será capaz de falar a uma voz quando houver motivos para celebrar. E esses tempos não parecem ser os de hoje.

Como diz o velho de Catch-22 ao piloto americano: «Atribui tanta importância a ganhar guerras! O verdadeiro truque consiste em saber perdê-las, em saber quais se podem perder. (…) A Alemanha perde-as e prospera.»

Hugo Picado de Almeida

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